Continuação do artigo de autoria de Lucas Bambozi, artista multimídia que investiga arte e tecnologia:
O que interessa nessas experiências? Por que tanto se persegue o sentido do “manipular”? E o que a arte a ver com isso?
As mídias baseadas no digital viabilizam pirotecnias mas de certa forma também constrangem. Apesar de todos os avanços, espera-se um contato mais orgânico, mais tátil com a imagem. E quando travestido de arte, o digital anseia por se libertar de sua condição. Trata-se de um síndrome da arte das mídias. Ela tende a se rebelar contra sí própria, contra sua função midiática, meramente comunicacional.
É sempre bom lembrar que o vídeo nasceu ao vivo. O registro veio depois, principalmente como forma de eliminação de gafes da TV ao vivo. E hoje a ‘imperfeição’ (o improviso), são elementos viabilizadores de adrenalina, que supostamente injetam ‘vida’ nos sistemas automatizados.
O que muda a partir dessa profusão de ferramentas visuais ao alcance que qualquer garoto? No que contribuem de fato as práticas introduzidas pelos Vjs? Acesso? Talvez. Desmistificação? Com certeza - esses são seguramente dois aspectos da maior importância. As transmissões de mão dupla já não são mais privilegio de grandes emissoras, ou de artistas como Paik, que teve o privilégio de manipular imagens e conectar performances em escala planetária. A perspectiva de maior ‘intercâmbio’ entre artista e público não cansa de fazer adeptos, mesmo a interatividade sendo já considerada um fenômeno do século passado. E o que acontece nos terrenos perceptivos ainda surpreende os que crêem na interação com um dispositivo meramente técnico.
Forjando mais um parodoxo, é possível afirmar que em plena era da perda de sentido do original, as performaces ao vivo se apresentam como obras únicas. O circuito que se forma em torno dos eventos de live-image são uma espécie de celebração entre comunidades nem sempre próximas: um misto de entretenimento, lazer, acontecimento cultural e laboratório digital. Uma arena onde o imaginário popular se degladeia com procedimentos técnicos ao som de música ritualística. Um momento de encontro definitivo da pop-arte com a cultura digital.
Como preconizou MacLuhan[4], os recursos eletrônicos acrescentaram a um olhar já alucinado o potencial do áudio amplificado e distorcido, multiplicando o efeito de simultaneidade, de descontinuidade, de interatividade de fragmentos autônomos, da conectividade táctil de um mundo invadido pelas multidões, pelos fluxos e pelas mercadorias.
E hoje não há mais dúvidas sobre o quanto o circuito da Arte se interessa por circuitos vizinhos, principalmente onde há alguma criatividade e efervescência.
Segundo Christine Mello, uma outra observadora que arrisca sistematizar sobre o instável, essas práticas “dizem respeito à questão do rompimento da hegemonia do gesto contemplativo na arte, à inclusão de múltiplos pontos de vista e ao corpo como um todo, em estado de deslocamento, inserido no contexto de significação do trabalho. Reinsere-se novamente de modo radical a idéia de desmaterialização, dos procedimentos imersivos e do ato artístico como abandono do objeto”.
Esses sistemas, referenciados no passado ou não, continuam causando uma redefinição na esfera da arte. No mínimo porque vem incomodando bastante.
Particularmente, acredito que falar em arte significa se deixar transformar pelo que se faz e ser afetado quase que incondicionalmente pela experiência. Atuar nesses procedimentos de manipualção de imagens ao vivo é,então, uma forma de “sofrer” o processo. Devolve ao fazer isolado e cerebral da edição de vídeo o transe necessário à criação na instantaneidade da ação. Um desafio extremamente excitante, que torna cada vez mais pertinente não se perguntar necessariamente se isso que se faz é, ou não, arte. (fonte:
interfaces críticas)