Permite assim, uma breve introdução com importantes observações de todo o processo dito por ele 'evolutivo' do homem na produção de sua arte, partindo das pinturas rupéstres, egípcias, clássicas gregas, romanas e renascentistas, citando os maiores mestres da cor de que se tenha registro - Da Vinci, Alberti, Cennini, Bosh, passando por Caravagio, Vermeer, Goethe, Turner, Cézanne até a cor se libertar do motivo em Matisse, Delaunay, Klee, Kandisky, Mondrian e Picasso. Passou pelos muralistas Orosco, Rivera e Siqueiros até chegar no Brasil com Portinari. O livro é rico em citações que creditam a mensagem do autor. Aborda conceitos da percepção visual, definições das cores - cor luz, pigmento e transparente apresentada pelo autor - paleta, complementares, frias, quentes, harmonias, etc. É comentado o estudo da cor em relação à imformática e por fim ele trata, é claro, de sua principal tese: a cor inexistente. Achei legal trazer na íntegra o Decálogo do Colorista, definido pelo nome brasileiro de maior relevância na ciência das cores, Israel Pedrosa:
I - 0 artista que aspire dominar a ciência do colorido deve considerar, em primeiro lugar, o fato de que a luz solar - que tem por síntese as cores-luz primárias, vermelho, verde e azul - é refletida para os nossos olhos pelos corpos naturais cujas camadas exteriores são formadas por cores de refletância que têm por síntese o vermelho, o amarelo e o azul. A mesma tríade de cores-pigmento de que se serve o pintor para reproduzir o universo visível. O único meio de que dispõe o pintor para penetrar nesse complexo universo é o olhar. Torna-se então evidente que ele precisará desenvolver ao máximo a capacidade perscrutadora do olhar. Para tanto, terá que transformar a observação de tudo que o cerca em permanente exercício de aperfeiçoamento da acuidade visual.
II - Ter sempre em mente que o aprendizado da análise das imagens visuais começa pela hierarquização das partes das áreas mais escuras em relação às das mais claras, tendo o preto e o branco como limites extremos, sem se esquecer de que esses limites também são coloridos e de que entre eles encontram-se todas as possibilidades cromáticas dos cinzas coloridos.
III - Considerar que a expressividade da imagem visual está relacionada ao conflito dos graus de luzes e sombras que se estabelece no conjunto da área em análise, descobrindo nele o conflito da complementaridade, que só encontra equilíbrio com uma justa intervenção dos tons rompidos.
IV - Não se esquecer de que, desde a primeira pincelada, o colorir deve ser um ato de reflexão sensível, procurando relacionar as cores mais claras, aquelas em que predominam os amarelos, com as áreas mais luminosa» do quadro.
V - Inversamente, buscar o relacionamento das cores mais escuras da paleta, aquelas em que predominam o azul, com as áreas sombrias. Esse exercício possibilitará ao pintor relacionar os índices da escala de tons (de cores) com os da escala de valores (de luminosidade). O domínio desse fenômeno poderá levar o pintor a inverter os termos da questão, tornando as luzes frias e as sombras quentes, sem perder harmonia.
VI - Nesse nível de desenvolvimento sensível, já será possível ao pintor determinar a cor dominante de uma imagem, sua cor tônica e as cores de passagem. Pode-se dizer que tal nível de aperfeiçoamento sensível corresponde à conclusão da formação artesanal do colorista. 0 artesanato surge então como primeiro estágio da formação artística do pintor.
VII - O artesanato é o reino do saber empírico que abre as portas da técnica aos mais sensíveis, dotados de determinada dose de imaginação abstrata. O que caracteriza o estágio da técnica no saber pictórico é a capacidada sensível de detectar os componentes cromáticos de cada cor e saber de que outras cores eles são compostos. A consecução desses saberes só é possível adquirir através de longo processo prático no manuseio da cor. A visão guia a execução no ato de colorir, mas sem esse ato a visão não se desenvolve além de um determinado limite, nem tem como aferir seu grau de acuidade perceptiva. É no domínio da técnica que o fazer pictórico atinge plena liberdade de execução e grande dose de automação.
VIII - O domínio da técnica é praticamente infinito. Nesse estágio desencadeiam-se todas as possibilidades de especulação, pesquisas diversas e renovações formais que possibilitarão a alguns raros pintores atingir o estilo, fase suprema da realização artística. Essa fase só é atingida quando todos os raciocínios do pintor, no ato de pintar, processam-se apenas com cores, por longos períodos, sem que uma única palavra interfira em seu pensamento. Alguns filólogos afirmam que o pensamento humano só se realiza através da palavra, mas os pintores agregam que ele também se realiza através de gamas de cores; os músicos, através de frases sonoras e os matemáticos afirmam raciocinarem com abstrações e equações numéricas e geométricas.
IX - Por seu poder de fascínio, quanto maior for o dom do artista, o colorido cria um reino de experiências inolvidáveis nas áreas do psiquismo e da esfera moral desse manipulador de cores. O que chamamos dom é a capacidade de tal pintor ou criador de imagem em transmitir com sua obra toda a carga emotiva vivenciada ou imaginada.
X - A partir do advento dos efeitos especiais eletrônicos, dos espetáculos de som e luz, dos monumentais desfiles carnava-lescos, da fotografia, do cinema e da televisão coloridos, da computação gráfica e da absorção dos novos recursos tecnológicos pela pintura, todos os criadores e manipuladores de imagens: modernos sacerdotes da luz, com seus sonhos e fantasias, em influências intercambiantes, integram e enriquecem o atual Universo da Cor."
