Reconhecer e entender as arestas da vida on e off line talvez seja uma tarefa complicada em tempos carregados de tecnologia. E compreender que elas já não mais existem permitindo a co-ação destes dois mundos? Nomenclaturas e conceitos tais como realidade aumentada, cibridismo e cibercultura fazem hoje parte do cotidiano de qualquer um, mesmo que de forma inconsciente. Giselle Beiguelman, doutora em História da Cultura pela USP e professora da pós-graduação em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, transporta tudo isso para a arte de forma fantástica. Seu trabalho é reconhecido internacionalmente e se destaca por envolver desde literatura e web art até mobile art, abrangendo pesquisa teórica associada à produção poética. Nesta entrevista, conversamos sobre seus projetos, paradigmas da arte no mundo virtual, volatilidade da fotografia e memória frente aos avanços tecnológicos. O curioso é que as respostas "aquietam" algumas questões, mas ao mesmo tempo, dão vida a outras várias interrogações. Talvez esteja aí a graça da coisa, tudo bem longe de ser um ponto final.
Manu Melo Franco – Para começarmos, qual o significado de algumas "tags" constantes quando o assunto é web arte. O que é o cibridismo, a realidade aumentada e como elas se relacionam no nosso cotidiano?
Giselle Beiguelman – O cibridismo, originalmente, na definição do arquiteto Peter Anders, é a projeção de elementos virtuais no mundo real. Eu utilizo essa definição de uma forma uma pouco distinta. Entendo o cibridismo como uma intersecção entre redes on e off line. A Realidade Aumentada é uma linha de pesquisa da computação que busca a criação de ambientes que envolvem elementos da realidade virtual e real. Nessa perspectiva, a Realidade Aumentada, pode ser compreendida como uma dimensão do cibridismo. Nosso cotidiano já é cíbrido. Vivemos entre redes on e off line. Os recursos de Realidade Aumentada atendem a essa condição emergente, permitindo, por exemplo, acessar informações adicionais sobre um determinado lugar, utilizando aplicativos instalados no celular.
Manu Melo Franco – A tecnologia como arte envolve inúmeras questões que "afrontam" nossa maneira usual de digerir uma obra, desde a concepção até a recepção. As variações de suporte, as inúmeras possibilidades de transmissão, a ideia do espectador como co-autor significam uma maneira mais livre e menos pragmática de criar e entender arte?
Giselle Beiguelman – Eu não diria que existe uma tecnologia que é arte, mas sim que existem criações que problematizam esteticamente a tecnologia. Isso não é nada novo. Basta pensar na Renascença e em como a perspectiva clássica colocou em circulação um modo totalmente distinto de ver e perceber. Todas essas variáveis que você menciona certamente introduzem novos repertórios de criação e recepção. O mais importante, contudo, não é o fato de lidarem com tecnologia, mas sim o de serem mediadas por um dispositivo que é uma máquina em rede e que é, a um só tempo, um máquina de leitura, escritura – seja ela textual, audiovisual, imagética etc – e publicação. Isso converte o espectador em editor do processo e introduz novas dinâmicas no circuito. Elas certamente permitiram um alargamento da capacidade de produção e vazão do conteúdo, diminuído o peso de alguns intermediários, mas introduziram outros, como o acesso às velocidades de conexão, equipamento etc. Eu não diria que as tecnologias ligadas à rede não criam por si só uma maneira mais livre de criar e entender arte, mas sim que configuram um território novo com outras possibilidades. E, dentro desses territórios, modelos econômicos e culturais interessantes que propõem articulações alternativas entre os circuitos on e off-line.