
Nome da exposição fotográfica de André Gardenberg, em cartaz até 1 de junho no Centro Cultural dos Correios. O artista apresenta um olhar questionador sobre o aparente caos urbano em que o carioca está inserido, e provavelmente anestesiados com a estética da violência em que rompe a cidade, é hora de pararmos para refletir, estas imagens podem ajudar. Tudo está cercado, tudo tem grades, coisas, lugares, pessoas. Favela cercam prédios, indiferença cercam favelas, quem é a vítima, TODOS, de todos os lados. (Fonte: Flickr de André Gardenberg)
A violência urbana criou uma nova estética nas cidades. Modernidade e barbárie coabitam o mesmo espaço, com a incorporação de elementos semelhantes aos hábitos medievais de defesa. Mudou não apenas a estética. O homem também se modificou. Ciente da nova realidade, o fotógrafo André Gardenberg voltou suas lentes para essa questão urbano-humanística e, com ‘Arquitetura do Medo’, dá continuidade à sua investigação sobre temas que envolvem a existência humana no mundo contemporâneo. A abertura da exposição será no dia 29 de abril, no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro. Em 7 de junho, a mostra chega à Pinacoteca do Estado, em São Paulo.
Com curadoria de Diógenes Moura, ‘Arquitetura do Medo’ é a segunda parte da trilogia de André Gardenberg, que foca no homem contemporâneo. Seu primeiro trabalho, ‘Arquitetura do Tempo’, mostrou ao público sua visão sobre o envelhecimento nos dias de hoje, trazendo à tona o eterno conflito da vida x morte e a inútil tentativa de parar o tempo.
A nova exposição reúne 80 fotos coloridas de André Gardenberg realizadas em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Através delas, o artista traça um painel da estética das grades, misto de adorno e proteção que a partir das últimas décadas do século passado foi se incorporando à paisagem da arquitetura brasileira. “As imagens selecionadas nos dão a sensação de vermos o mapa do Brasil de cima e percebermos que ele está enjaulado”, define Diógenes. “Tento retratar todas essas barreiras, grades e cercas que, ao invés de proteger a sociedade, acaba por aprisioná-la atrás de si. Por meio desse recorte da realidade é possível enxergar uma nova cidade, aflita e aprisionada pelo medo”, resume André.
“A exposição é uma série de imagens que agonizam tanto quanto a violência que se estabelece nas cidades. Ela sangra”, enfatiza Diógenes. “Anos e anos de desequilíbrio social não poderiam deixar de produzir uma sociedade que precisa se proteger de forma obsessiva”, observa André.
As fotografias, emolduradas, criam um painel visual organizado a partir de dois enfoques distintos: a vertente humanista e outra que aponta para o grafismo. Todas as imagens foram feitas nas ruas dessas quatro cidades. “Ao se colocar em campo o próprio fotógrafo também ficou acuado, o que dá uma dimensão maior ao material coletado”, afirma Diógenes.
‘Arquitetura do Medo’ ocupará três salas do Centro Cultural dos Correios, com pouca iluminação e cenografia, justamente para valorizar as imagens da exposição. “A fotografia do André justifica-se por si só”, enfatiza Diógenes.
As fotos retratam não apenas as cidades, mas também pessoas, animais e coisas. “Tudo está aprisionado”, revela Gardenberg. A disposição não propõe uma separação espacial ou uma seleção através dos objetos retratados. “Fiz questão de misturar tudo, para que o visitante percorra essa trilha preocupado unicamente com a imagem. Ela é o centro”, resume Diógenes.
As fotografias revelam ainda modelos diferentes de grades e formas diversas de aprisionamento, traçando um painel de como o homem está atuando diante dessa violência. Como desdobramento da exposição, será criado e confeccionado um livro de fotografias, em parceria com a editora Cosac Naify.
Para André Gardenberg, ‘Arquitetura do Medo’ lança ainda outra questão: “Quem é o verdadeiro algoz? Quem é a verdadeira vitima? Essa situação se apresenta quase indissolúvel dentro desta sociedade caótica”. Diógenes acrescenta: “Não existe uma discussão urbana, há uma banalização da violência. É preciso fazer uma reflexão: onde vamos parar?”.
“Precisamos, todos, sair da prisão”, arremata André. (Fonte: Flickr de André Gardenberg)