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Iberê Camargo


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Arte, para mim, foi sempre uma obsessão. Nunca toquei a vida com a ponta dos dedos. Tudo o que fiz, fiz sempre com paixão. (Iberê Camargo, 1914–1994)

Silêncio absoluto. Corpo e tinta na tela. Pincel, espátula, dedos, esponja, tecido, unhas. Todo esforço necessário para transformar ação em pintura. Camada após camada, Iberê Camargo se desafiava a cada gesto. Incansável, fazia e refazia seus quadros infinitas vezes, em entrega incondicional ao que era a sua vocação. "Lanço-me na pintura e na vida por inteiro, como um mergulhador na água", escreveu.

O embate travado a cada obra se confundia com a luta e o empenho de Iberê em se tornar pintor. Nascido "fora da plantação, como erva daninha", como ele mesmo definiu, procurou se afastar progressivamente da periferia. De Restinga Seca, a cidade natal, chegou a Porto Alegre em 1936, após passar a infância em diversas cidades gaúchas. Em 1942, foi para o Rio de Janeiro. Premiado no Salão Nacional de Arte Moderna, viajou à Europa seis anos mais tarde. "Iberê vivia com muita angústia sua condição provinciana. Tinha um desejo de universalidade próprio do homem moderno", diz o crítico Ronaldo Brito.

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"Ele foi o exemplo vivo do sujeito empenhado até a medula na atitude quase missionária de perseguir seus objetivos artísticos", afirma a artista plástica Regina Silveira, aluna de Iberê nos anos 60. Em mais de 50 anos de produção, foram cerca de 7.500 obras, entre pinturas, gravuras e desenhos.

Independente, Iberê nunca se filiou a correntes ou movimentos. Traçou um curso solitário, coerente com suas próprias indagações. Nem por isso deixou de receber destaque. Conquistou a crítica, ganhou prêmios importantes e teve sua obra reverenciada em exposições como as bienais de São Paulo, Veneza, Tóquio e Madri. A decisão de ser um artista integral é um dos elementos que conferem à sua obra um nível quase único. "Mesmo entre os grandes pintores, a qualidade dos trabalhos costuma ser irregular. Em Iberê, ela não só se mantém, como se potencializa ao longo da sua trajetória", destaca Brito.

Iberê Camargo era um pintor 24 horas por dia. Quando não estava pintando, estava escrevendo, desenhando, lendo um livro, estudando. "Era um homem compenetrado, metódico mesmo. Tinha horário para entrar no ateliê, mas não para sair. E, após o trabalho, tudo tinha de ser limpo. Nunca deixava um pincel sujo de um dia para o outro", conta o artista plástico Eduardo Haesbaert, amigo e assistente em seu ateliê. A crítica Lisette Lagnado acrescenta: "Ele pertence a uma estirpe de artista que nunca mais conheci, capaz de fazer um trabalho com as vísceras, sem cair no anedótico ou pintar com as neuroses".

"Era uma agonia vê-lo pintar. Ele destruía um quadro após outro", relembra o amigo e cineasta Mario Carneiro. Cada camada de tinta era uma total subversão da anterior. Muitas vezes, desmanchava tudo e recomeçava do zero. O artista buscava a forma que rompesse com suas expectativas. Queria se surpreender com sua própria pintura. "Se eu souber o quadro que vou pintar, eu não pinto", costumava dizer.

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Quando Iberê trabalhava, era como se mais nada existisse. Só a pintura. "Entrava em transe, parecia que estava tendo um troço. Era algo muito intenso", conta a artista Mariza Carpes, que costumava freqüentar seu ateliê junto com outros amigos do artista. "Ele adorava platéia, gostava que o víssemos trabalhar e sempre perguntava o que achávamos da obra", conta Lia Raffainer. Falava bastante enquanto pintava. Resmungava, criticava o trabalho, mas exigia silêncio total à sua volta. Chegou a travar verdadeiras guerras contra vizinhos barulhentos.

"Às vezes, ele ficava brabo com uma coisinha mínima. Gastava aquela tonelada de tinta, mas não se contentava com o quadro. Eu dizia: Iberê, está pronto! Está pronto, não mexe mais! E ele: Não, tchê, aquele troço está me agoniando! Ele ia lá e estragava tudo. Um dia, tinha um quadro enorme que tinha ficado pronto. Ele já tinha sentado, e eu já havia lavado tudo. Mais tarde, eu já estava em casa e de repente liga a Maria (esposa), chamando-me porque ele estava querendo mexer de novo!", conta o artista e ex-aluno Carlos Vergara. Era sempre assim: se ficasse uma única dúvida, ele levava a tela para casa, colocava ao lado da mesa de jantar e ficava olhando. Não era raro levantar e continuar o trabalho. "Uma vez, chegou a retocar um quadro depois de vendê-lo", relembra Maria. Obsessivo, Iberê nunca tocou a vida "com a ponta dos dedos". Para ele, um quadro era um gesto, "o último gesto", como afirmou.

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Altos e baixos
Filho dos ferroviários Adelino e Doralice, o artista começou a desenhar aos 4 anos. Aos 13, ingressou na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, onde ganhou prêmio de pintura. Em seu primeiro emprego, aos 18 anos, em Jaguari, foi desenhista no 1º Batalhão Ferroviário, ofício que voltou a desempenhar ao chegar a Porto Alegre, na Secretaria de Obras Públicas do Estado.

Na mesma época, em 1939, casou-se com a professora de Desenho Maria Coussirat, companheira por toda a vida e figura essencial na sua trajetória como pintor. "Eu era responsável por tudo: gerenciava as contas da casa, tratava com os advogados e decidia sobre os imóveis. Sabia que Iberê era grato por isso", conta Maria. Os dois se conheceram na Praça da Matriz e se reencontraram no Instituto de Belas Artes, onde ele cursava Arquitetura, e ela, Pintura. "Iberê conversou com meu pai, começou a freqüentar nossa casa e logo quis se casar." Ele, que já tinha uma filha de 5 anos, Gerci, e sempre deixou claro que não queria filhos. "Por isso, decidimos evitá-los, e acho que foi uma escolha acertada, pois nossa vida foi muito cheia de altos e baixos", revela Maria.

No instituto, o artista permaneceu pouco tempo. "Ele se sentia tolhido pelo academicismo, embora já se interessasse pelos grandes mestres da arte." Foi a partir dos anos 40 que resolveu se dedicar integralmente à pintura. Largou o serviço público e construiu seu primeiro ateliê nos fundos da casa dos pais de Maria, onde o casal morava. Buscava seus modelos na Sopa do Pobre, instituição de caridade da capital e, além de mendigos e tipos de rua, pintava suas paisagens de infância. "Existe uma inquietude na obra de Iberê que aparece desde muito cedo. Suas primeiras paisagens, tortuosas, exprimem uma intensidade muito grande, como que em resposta a um sentimento de incapacidade de captar o real", observa o crítico Paulo Venâncio Filho, curador da retrospectiva que estará em São Paulo, a partir de junho. "Seus trabalhos iniciais já demonstram a sua vocação para a pintura. Ali está todo o núcleo de sua poética: a gestualidade, o ímpeto e o fervor artístico", confirma Ronaldo Brito.

Iberê se considerava um andarilho, alguém em eterna busca por formação. Foi essa gana em aprender e se formar artista que o guiou ao longo da vida. Incomodado com o marasmo cultural da capital gaúcha, o artista resolveu se mudar para o Rio de Janeiro em 1942. "Do ponto de vista de um pintor, Porto Alegre era uma cidade provinciana, conservadora. O modernismo não tinha ainda influído nas artes plásticas do Rio Grande do Sul", escreveu. Auxiliado pelos amigos Décio Soares de Souza, Vianna Moog e Moysés Velhinho, recebeu uma bolsa de estudos do Estado e partiu com Maria para a então capital federal, onde também contou com a ajuda de Luiz Aranha, que lhe provia telas, tintas e pincéis.

"Vivíamos sempre em pensões, e o dinheiro era contado, mas não posso dizer que a vida era difícil", reflete a esposa, que logo arranjou um emprego como ajudante em um escritório de arquitetura. Ainda nos primeiros dias no Rio, ela usou as tintas do marido para fazer um quadro. "Aqui, só tem tinta para um", disse Iberê ao surpreendê-la com seus materiais. Desde então, Maria nunca mais voltou a pintar. "Entendi que o artista, ali, era ele."

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Embora tenha percorrido um caminho bastante solitário nas artes, Iberê Camargo sempre cultivou relações no meio artístico e intelectual e foi, aos poucos, integrando-se à vida cultural carioca. "À noite, gostávamos de ir ao Largo do Machado encontrar os amigos e, nos finais de cinema, íamos muito à Cinelândia", lembra Maria. No Café Vermelhinho, tradicional ponto de encontro de artistas, jornalistas e escritores, o pintor conheceu figuras como Djanira, Milton Dacosta, Flávio de Aquino, Aparício Torelly (o Barão de Itararé) e Solano Trindade. Em certa ocasião, foi apresentado a Portinari, a quem foi logo dizendo que não apreciava sua pintura. "Iberê era de uma sinceridade desconcertante. Nunca estimulou aquelas pessoas em quem não acreditava", conta o artista Carlos Zílio, aluno de Iberê no início dos anos 60.

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No Rio, procurou mais uma vez a academia, mas logo abandonou a Escola de Belas Artes para criar, ao lado de Elisa Byington e Geza Heller, o famoso Grupo Guignard. Tratava-se de um ateliê coletivo, que funcionava em uma antiga gafieira chamada A Flor do Abacate. Lá, o grupo de jovens artistas recebia orientações do mestre Guignard. "Com ele, Iberê desenvolveu uma luminosidade muito difusa e expressiva, que permanece até seus últimos quadros, quando o horizonte crepuscular anuncia a condição trágica de seus personagens", afirma Mônica Zielinsky, crítica de arte e coordenadora do projeto de catalogação da obra de Iberê, desenvolvido pela fundação que leva o nome do artista.

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Lapa, tela premiada no Salão Nacional, levou o pintor e a esposa à Europa em 1948. O contato com grandes obras e artistas proporcionou a Iberê aproximar-se um pouco mais daquilo que tanto buscava. "Ele queria se ver parte da tradição pictórica ocidental. Admirava Picasso, Matisse, Goya, Appel. Em sua obra, dialoga com todos os mestres da arte, mas sua poética é a do eu solitário, daquele que não se parece com ninguém", afirma Ronaldo Brito. O pintor morou em Roma por um ano, onde estudou com Petrucci, Achille e De Chirico. Foi este quem o ensinou a copiar os clássicos para aprender a enxergar como eles, tarefa que seguiu à risca, reproduzindo e anotando minuciosos detalhes de obras de Ticiano, Rembrandt, Goya, El Greco, Rubens, Velázquez, entre tantos outros. Em Paris, estudou com André Lhote e seguiu copiando os mestres nos museus. Após um ano na capital francesa, retornou à Itália, onde permaneceu alguns meses antes de voltar para o Brasil. Em Florença, Iberê e Maria freqüentavam a Galeria Uffizi quase diariamente. "Eles nos traziam desenhos de Leonardo e Rafael, e a gente podia pegá-los na mão. Iberê ficava tão transtornado que eu cheguei a comprar um jogo de xadrez para ver se ele ocupava a cabeça com outras coisas", conta Maria.

Obsessões
Seu rigor não se expressava apenas na sua arte e na constante busca por aprendizado. A forma como encarava suas telas também aparecia no seu jeito de se relacionar com o mundo e consigo mesmo. Atento à saúde, comia pouco açúcar e bebia apenas vinho. Além disso, nadava no Rio de Janeiro e costumava correr na Redenção, quando voltou a morar em Porto Alegre, no início dos anos 80. Sua aparência também merecia atenção. Gostava de se vestir bem e não descuidava do peso. "Quando passeávamos na Rua da Praia, a parada na balança da farmácia era obrigatória", conta Lia Raffainer.

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Com seus escritos, a exigência era a mesma. Tinha mania de estudar gramática e, quando escrevia em italiano, língua que tanto admirava, sempre pedia à professora Sofia que lhe revisasse os textos. Em 1988, Iberê publicou a coletânea de contos No Andar do Tempo, e, em 1998, quatro anos após sua morte, foi lançado o livro Gaveta dos Guardados, em que o artista fala de suas memórias e reflexões sobre a vida. Sobre sua produção literária, o historiador Décio Freitas escreveu: "A pintura arrebatou à literatura um escritor".

Iberê tinha o hábito de anotar tudo. Do número do sapato ao tamanho das pilhas do relógio, passando pela composição de suas tintas. "Era uma maneira de não ocupar a cabeça com coisas menores", opina Haesbaert. O freio de mão do carro fazia um tique-taque quando estava puxado, que era para ele não esquecer de soltá-lo. E todos os interruptores da casa eram marcados em vermelho. Assim, quando faltava luz, sabia quais estavam ligados.

Também era um amigo exigente. Quando gostava de alguém, queria para ele. Nos encontros em seu ateliê e na sua casa, procurava distribuir os convidados, que era para não correr o risco de ter muitos em um dia, e ninguém no outro. "Era uma pessoa difícil. Tinha aquele temperamento de dizer as coisas e depois se arrepender. Mas, se você tivesse um bom relacionamento com ele, as coisas andavam bem", conta o pintor e amigo Deny Bonorino. "Iberê fazia teste de amizade. Dava tarefas aos amigos e ficava avaliando", lembra Eduardo Haesbaert. "Ele delegava funções e fazia isso com a maior naturalidade", confirma Lia. Prezava uma boa conversa e adorava discutir política, reclamar da situação do Brasil, contar e ouvir histórias e conversar sobre pintura.

O mestre Iberê
De volta ao Rio, no final de 1950, Iberê e Maria compraram um apartamento em Santa Tereza e passaram a morar com Gerci, que até os 16 anos tinha vivido em Jaguari com a avó. "Nossa relação era bastante complicada. Meu pai tinha um gênio muito forte, e eu também", conta a filha do pintor. Ela recorda os momentos em que o pai vendia um quadro e chegava em casa com uma garrafa de vinho para comemorar. "Era dia de festa!"

Iberê havia trazido uma prensa da Europa e, nessa época, começou a se interessar mais pela gravura. Dava aulas em seu ateliê, na Lapa, e em 1953 fundou o Curso de Gravura em metal no Instituto Municipal de Belas Artes. A gravadora Anna Letycia, aluna de Iberê nesse período, conta que o artista exigia dedicação total. "Ele nos obrigava a polir a chapa de metal até que ficasse como um espelho. Só assim, podíamos trabalhar." Carlos Vergara confirma: "Quando fui aluno de Iberê, eu jogava vôlei, e ele ficava com ódio, porque às 18h30min eu tinha que ir embora por causa do treino. Não pode! Ou tu és artista, ou esportista, ele dizia".

No final dos anos 60 e início dos 70, Iberê ministrou aulas de pintura para detentos na Penitenciária de Porto Alegre. O amigo Mario Carneiro conta que ele ficou muito entusiasmado com a experiência. "Ficava impressionado com a capacidade da arte de libertar as pessoas. Não guardava para si o que sabia. Assim como gostava de aprender, gostava de passar seu conhecimento." Na capital gaúcha, em 1960, o mestre realizou os famosos Encontros com Iberê, que acabaram dando origem ao Atelier Livre da Prefeitura. Participaram da atividade artistas como Regina Silveira, Paulo Peres, Suzana Mentz e Enio Lippman. "Iberê não ensinava apenas pintura. Mostrava, nos gestos e nas atitudes, o grau de exigência que o artista deveria ter consigo mesmo e o rigor que deveria se impor na arte e na vida. Ensinava como podia ser profundo o mergulho", exalta Regina Silveira. Naquela época, Iberê já havia começado a pintar seus famosos carretéis. Afetado por uma hérnia de disco em 1958, viu-se obrigado a trabalhar somente no ateliê. Abandonou as paisagens do Rio de Janeiro e elegeu o curioso objeto como modelo.

Impregnado de lembranças de sua infância, o carretel – signo, símbolo, personagem – foi se metamorfoseando ao longo do tempo. Teria o pintor alcançado a abstração? "Como expressionista, Iberê esteve sempre à beira da abstração, rompendo com certos limites e inclusive com a figura. Mas ele não defendia a abstração, muito menos teorizava sobre ela", esclarece Paulo Venâncio.

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Pintor, faxineiro e Doutor Honoris Causa
Embora muitas vezes ranzinza, Iberê tinha um humor inigualável. Espirituoso, adorava contar piadas e fazer brincadeiras. Aos amigos, dizia ser pintor, faxineiro e Doutor Honoris Causa (título que recebeu da Universidade Federal de Santa Maria em 1986). "Ele sempre limpava os pincéis com papel higiênico. Um dia, enquanto estava pintando, o papel rolou longe, e Iberê, indignado: Seu desgraçado! Estou te dando um destino muito melhor do que tu mereces!", recorda Mariza Carpes. Irônico, planejava fazer um guia com idéias de instalações artísticas. Uma delas seria pintar a roda de uma bicicleta e sair pedalando pela cidade. Outra era encher uma sala de peixes e ver quanto tempo as pessoas agüentariam ficar no local. "Para ele, a verdadeira instalação era a hidráulica ou a elétrica", brinca Eduardo Haesbaert.

Seus cartuns, publicados a partir de 1986, em jornais como o Pasquim e o Terceira Margem, também testemunham o humor do artista. O mesmo traço que desenhava ciclistas e idiotas fazia críticas irreverentes a políticos como José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Alceu Collares e Pedro Simon. Quase tudo assinado com o pseudônimo Maqui. Em um de seus desenhos, colocou uma idiota no centro do mapa do Brasil. Abaixo, escreveu "minha gente", em referência à expressão usada por Collor.

Da tinta à política
"Iberê tinha um sentido enorme de justiça, mas horror a qualquer coisa que fosse dogmática, por isso nunca se filiou a qualquer partido ou movimento", afirma Mario Carneiro. "Mas é claro que não era um homem de direita", diz a esposa Maria.

"A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais íntima que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida", escreveu o pintor em 1985, em texto que intitulou Um Esboço Autobiográfico.

A partir de 1954, ciente da má qualidade das tintas brasileiras, o pintor liderou um movimento pela diminuição das taxas de importação de materiais artísticos. Ao lado de Djanira, Milton Dacosta, Anna Letycia e Sérgio Camargo, esteve com Getúlio Vargas e organizou exposições em protesto contra os altos impostos, como o Salão Preto e Branco e o Salão Miniatura. A luta se prolongou por décadas, e Iberê a apelidou de "a sua Guerra dos 100 Anos".

Tragédia
O ano de 1980 marcaria para sempre a vida e a obra de Iberê Camargo. Na tarde do dia 5 de dezembro, ao caminhar com sua secretária pelo bairro de Botafogo, próximo ao seu ateliê, o pintor foi agredido por um desconhecido, o engenheiro Sérgio Alexandre Areal. Amedrontado pela violência do Rio de Janeiro, o artista havia cursado uma academia de tiro e levava consigo uma arma. O engenheiro o interpelou, empurrou-o ao chão e ameaçou avançar. Assustado, Iberê sacou o revólver e o matou com dois tiros. "Vê só o que esse teu amigo fez", teria dito a Deny Bonorino, que no mesmo dia foi à delegacia confortá-lo.

"Ficou muito deprimido. Nunca mais foi o que era", observa Maria. Muitos amigos cortaram relações, e os que ficaram não gostam até hoje de tocar no assunto. Reconhecida a tese de legítima defesa, Iberê foi absolvido em sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça, após passar quase dois meses na prisão. Quando voltou a morar em Porto Alegre, em 1982, entregou cópias do processo criminal a amigos. "Não gostava de falar nisso, mas queria que soubéssemos como as coisas tinham acontecido", conta Mariza Carpes.

Logo após o incidente, a venda de obras chegou a cair no Rio de Janeiro, "mas não no Rio Grande do Sul", afirma a marchand do artista, Tina Zappoli. Na capital gaúcha, entretanto, a APLUB liquidou o acervo de obras do pintor. Em repúdio ao ato, amigos de Iberê se organizaram e enviaram uma série de telegramas à instituição.

Gaveta dos guardados
"Voltei para o Sul em busca da tranqüilidade que perdera no Rio. E também porque a saudade tornara-se grande demais", escreveu Iberê. De volta à capital gaúcha, o pintor buscou se aproximar cada vez mais de seu "pátio da infância". Rememorou histórias, reencontrou amigos, documentou lembranças e vasculhou sua gaveta dos guardados. Aos poucos, o artista deixou a abstração e retornou à arte figurativa, mudança que já havia iniciado no final dos anos 70. Envoltas em uma atmosfera densa e sofrida, suas telas povoaram-se de personagens. Dos passeios pela Rua da Praia, surgiu a série Fantasmagoria: Iberê costumava desenhar os manequins das vitrines, e foi a partir desses croquis que pintou as grandes telas azuis. Já os ciclistas nasceram de suas caminhadas pelo Parque da Redenção. Sobre eles, o pintor escreveu: "São caminhantes, no fundo, sem meta. São seres desnorteados". No início dos anos 90, vieram as idiotas. Figuras melancólicas, disformes, inquietantes, elas marcam um momento especial na obra do artista. São criaturas que nascem da dor. "Com elas, Iberê traduz toda a sua consciência da morte e da impotência diante da vida: a miséria humana", afirma Mônica Zielinsky.

Mergulhado no mar grosso de sua memória, o pintor retomou temas do passado em seus trabalhos finais, como as bicicletas e os carretéis que reaparecem nas telas da série Tudo Te É Falso e Inútil. Sua intenção era voltar às paisagens iniciais, não fosse a doença que já o tomava. Acometido por um câncer no pulmão, Iberê não parou de trabalhar em nenhum momento. Mesmo no hospital, pedia que lhe trouxessem papéis e canetas Pilot para desenhar. Em seus delírios, entretanto, era tinta óleo e essência de terebentina o que o pintor exigia para produzir. Iberê sentia não ter mais tempo a perder.

Debilitado, trocou as grandes telas por guaches no último ano. Ainda assim, às vezes varava a noite trabalhando. "Quanto mais velho a gente fica, mais tem de apressar o passo", dizia. A tela Solidão, sua derradeira obra, foi pintada com dificuldade. "Tive de chamar uma vizinha para que ela me ajudasse a carregar Iberê até o ateliê", conta Maria. Iberê Camargo morreu aos 79 anos de idade, em Porto Alegre, no dia 8 de agosto de 1994.

Desejo de memória
"Movido pelo obscuro desejo de permanência", como ele mesmo definiu, Iberê Camargo se empenhou não apenas em produzir, mas também em conservar e documentar sua obra. Com a ajuda de Maria, que guardava convites de exposições, catálogos, recortes de jornal e desenhos em guardanapo, anotava informações sobre cada um de seus trabalhos: título, técnica, tamanho, data, local, valor e comprador. Além disso, deixou mais da metade de sua produção nas mãos da esposa. "Iberê tinha consciência do patrimônio fantástico que deixaria à Dona Maria e chegou a expressar seu desejo de construir uma fundação", conta Jorge Gerdau Johannpeter, presidente executivo da Fundação Iberê Camargo. "Ele já intuía e idealizava a preservação de seu legado", confirma Maria. Não é à toa que dedicou a vida a produzir uma obra que permanece até hoje como um dos grandes tesouros da arte brasileira.

Texto de Fernanda Albuquerque, originalmente publicado na Revista Aplauso nº 47, de maio de 2003.

 

 


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