
Fichamernto do livro "Conceitos da Arte Moderna" NIKOS STANGOS. Editor: Jorge Zahar Pág. 98 a 106. Escrito por DAWN ADES.
"Dadá é um estado de espírito", disse Breton." Esse estado de espírito já era endêmico na Europa antes da guerra, mas o conflito deu novo impulso e urgência ao descontentamento que muitos artistas plásticos e poetas já sentiam. Huelsenbeck escreveu em 1920: "Estamos de acordo que a guerra foi maquinada pelos vários governos pelas razões mais autocráticas, sórdidas e materialistas." A guerra era a agonia de uma sociedade baseada na cobiça e no materialismo. Ball viu o Dadá como um réquiem para essa sociedade, e também como os primórdios de uma nova. "O dadáísta luta contra os estertores e delírios mortais de seu tempo... Sabe que este mundo de sistemas foi despedaçado, e que a era que exigia pagamento à vista acabou organizando uma liquidação de filosofias sem deus." A própria arte era dependente dessa sociedade; o artista e o poeta eram produzidos pela burguesia e deles esperava-se, portanto, que fossem seus "trabalhadores assalariados", servindo a arte meramente para preservá-la e defendê-la. A arte estava tão intimamente ligada ao capitalismo burguês quanto as imagens complexas deste trecho de Tzara indicam: "É o propósito da arte fazer dinheiro e agradar ao amável burguês? As rimas soam com a assonância da moeda circulante, e a inflexão desliza ao longo da linha da barriga de perfil. Todos os grupos de artistas chegaram a esse consórcio depois de terem cavalgado seus corcéis em vários cometas." A arte tornou-se uma transação comercial, literal e metaforicamente, os artistas eram mercenários em espírito, os poetas, "banqueiros da linguagem". Tornou-se ainda uma espécie de válvula de segurança moral, justificando um patriotismo dúbio: "Nenhum de nós tinha em grande apreço a espécie de coragem exigida para que alguém se deixe matar pela idéia de uma nação que, na melhor das hipóteses, é um cartel de açambarcadores e traficantes ou, na pior, uma associação cultural de psicopatas que, com os alemães, marcharam para o front com um volume de Goethe na mochila, a fim de espetar franceses e russos em suas baionetas." "A revolta dos dadáistas envolveu um tipo complexo de ironia, porque eles próprios eram dependentes da sociedade condenada, e a destruição desta e de sua arte significaria, pois, a destruição deles próprios como artistas. Assim, num certo sentido, o Dadá existiu para se destruir. (pag. 98-99)
1. O efeito de tais gestos era inteiramente desproporcional ao montante de energia que os dadáístas neles investiam. Era como se o dadá tivesse uma vida própria porquanto não havia unidade real entre os dadáístas. Suas exposições, por exemplo, eram notáveis por sua total incoerência. Nada há que seja um estilo dadá. Os dadáístas continuaram produzindo arte (ou o que, em virtude de um processo de osmose, se converteu subseqüentemente em arte), mas cada um seguindo sua própria direção. Dadá também teve um caráter ligeiramente diferente nos diferentes lugares. Entretanto, talvez se possam distinguir dois tipos de ênfase dentro do Dadá. Por um lado, havia aqueles como Ball e Arp, que buscavam uma nova arte a fim de substituir o esteticismo gasto e irrelevante; e, por outro lado, aqueles como Tzara e Picabia, empenhados na destruição pela zombaria, e também preparados para explorar a ironia de sua posição, burlando o público a respeito de sua identidade social como artistas. Picabia desfrutou enorme sucesso em Paris como o artista dadá. (pag. 100)
Levamos a plasticidade da palavra a um ponto que dificilmente poderá ser suplantado. Esse resultado foi obtido à custa da sentença logicamente construída e racional... As pessoas podem sorrir, se assim quiserem; a linguagem nos agradecerá por nosso zelo, mesmo que não haja quaisquer resultados diretamente visíveis. Incutimos na palavra forças e energias que nos possibilitam redescobrir o conceito evangélico do "verbo" (logos) como um complexo mágico de imagens. (pag. 102)
7. A não-superioridade do artista como criador era uma das preocupações fundamentais do Dadá. Ligado a isso estava todo ura complexo de idéias, interpretadas de diferentes maneiras por um ou outro dadáísta. Poesia e pintura podem ser produzidas por qualquer um; deixou de ser requerido um determinado surto de emoção para produzir qualquer coisa; rompeu-se o cordão umbilical entre o objeto e o seu criador; não existe diferença fundamental entre o objeto feito pelo homem e o objeto feito pela máquina, e a única intervenção pessoal possível numa obra é a escolha. (pag. 105)
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