DESARTE. Linguagens Visuais! Arte Blog.

flickr facebook twitter tumblr feed

Dadá, Dadaismo


Compartilhe Arte! Divulgue!

BFda HugoBallLG

Fichamernto do livro "Conceitos da Arte Moderna" NIKOS STANGOS. Editor: Jorge Zahar Pág. 98 a 106. Escrito por DAWN ADES.

 "Dadá é um estado de espírito", disse Breton." Esse estado de espírito já era endêmico na Europa antes da guerra, mas o conflito deu novo impulso e urgência ao descontentamento que muitos artistas plásticos e poetas já sen­tiam. Huelsenbeck escreveu em 1920: "Estamos de acordo que a guerra foi maquinada pelos vários governos pelas razões mais autocráticas, sórdidas e materialistas." A guerra era a agonia de uma sociedade baseada na cobiça e no materialismo. Ball viu o Dadá como um réquiem para essa sociedade, e também como os primórdios de uma nova. "O dadáísta luta contra os estertores e delírios mortais de seu tempo... Sabe que este mundo de sistemas foi despedaçado, e que a era que exigia pagamento à vista acabou organizando uma liquidação de filosofias sem deus." A própria arte era dependente dessa sociedade; o artista e o poeta eram produzidos pela burguesia e deles espera­va-se, portanto, que fossem seus "trabalhadores assalariados", servindo a arte meramente para preservá-la e defendê-la. A arte estava tão intimamente li­gada ao capitalismo burguês quanto as imagens complexas deste trecho de Tzara indicam: "É o propósito da arte fazer dinheiro e agradar ao amável bur­guês? As rimas soam com a assonância da moeda circulante, e a inflexão des­liza ao longo da linha da barriga de perfil. Todos os grupos de artistas chegaram a esse consórcio depois de terem cavalgado seus corcéis em vários cometas." A arte tornou-se uma transação comercial, literal e metaforica­mente, os artistas eram mercenários em espírito, os poetas, "banqueiros da linguagem". Tornou-se ainda uma espécie de válvula de segurança moral, jus­tificando um patriotismo dúbio: "Nenhum de nós tinha em grande apreço a espécie de coragem exigida para que alguém se deixe matar pela idéia de uma nação que, na melhor das hipóteses, é um cartel de açambarcadores e traficantes ou, na pior, uma associação cultural de psicopatas que, com os alemães, marcharam para o front com um volume de Goethe na mochila, a fim de espetar franceses e russos em suas baionetas." "A revolta dos dadáistas envolveu um tipo complexo de ironia, porque eles próprios eram dependen­tes da sociedade condenada, e a destruição desta e de sua arte significaria, pois, a destruição deles próprios como artistas. Assim, num certo sentido, o Dadá existiu para se destruir. (pag. 98-99)

 1. O efeito de tais gestos era inteiramente desproporcional ao montante de energia que os dadáístas neles investiam. Era como se o dadá tivesse uma vida própria porquanto não havia unidade real entre os dadáístas. Suas ex­posições, por exemplo, eram notáveis por sua total incoerência. Nada há que seja um estilo dadá. Os dadáístas continuaram produzindo arte (ou o que, em virtude de um processo de osmose, se converteu subseqüentemente em arte), mas cada um seguindo sua própria direção. Dadá também teve um ca­ráter ligeiramente diferente nos diferentes lugares. Entretanto, talvez se possam distinguir dois tipos de ênfase dentro do Dadá. Por um lado, havia aqueles como Ball e Arp, que buscavam uma nova arte a fim de substituir o esteticismo gasto e irrelevante; e, por outro lado, aqueles como Tzara e Picabia, empenhados na destruição pela zombaria, e também preparados para explorar a ironia de sua posição, burlando o público a respeito de sua identi­dade social como artistas. Picabia desfrutou enorme sucesso em Paris como o artista dadá. (pag. 100)

2. Arp escreveu mais tarde: Em Zurique, em 1915, tendo perdido o interesse pelos matadouros da I guerra mundial, voltamo-nos para as Belas-Artes. Enquanto o troar da artilharia se escutava a distância, colávamos, recitávamos, versejávamos, cantá­vamos com toda a nossa alma. Buscávamos uma arte elementar que, pensávamos, salvasse a espécie humana da loucura destes tempos. (pag. 100)

3. Dadá significava para Arp algo muito particular: Dadá visou destruir as razoáveis ilusões do homem e recuperar a ordem na­tural e absurda. Dadá quis substituir o contra-senso lógico dos homens de hoje pelo ilogicamente desprovido de sentido. É por isso que golpeamos com toda a força no grande tambor de Dadá e proclamamos as virtudes da não-razão. Dadá deu à Vênus de Milo um enema e permitiu a Laocoonte e seus filhos que se libertassem, após milhares de anos de luta com a boa salsi­cha Python. As filosofias têm menos valor para Dadá do que uma velha escova de dentes abandonada, e Dadá abandona-as aos grandes líderes mundiais. Dadá denunciou os ardis infernais do vocabulário oficial da sabe-doria.Dadá é a favor do não-sentido, o que não significa contra-senso. Dadá é desprovido de sentido como a natureza. Dadá é pela natureza e contra a arte. Dadá é direto como a natureza. Dadá é pelo sentido infinito e pelos meios definidos. (pag. 101)

4. Arp era um poeta, tanto quanto um artista plástico, e aderiu ao ataque contra a linguagem que o Dadá desencadeou e que o surrealismo continuaria à sua maneira. Richter descreve como Arp, certo dia, rasgou um desenho em pedaços e deixou que os fragmentos, ao cair, formassem um novo padrão; Arp começava a deixar que o acaso entrasse em suas composições; e, ao mesmo tempo, estava produzindo desenhos espontâneos que resul-tavam do fluir livre da tinta, que tinham muito em comum com o desenho automático dos surrealistas. (pag. 101)

5. Enquanto o surrealismo organizaria essas idéias num conjunto de re­gras e princípios, no Dadá elas eram apenas uma grande explosão de atividade que tinha por objetivo provocar o público, a destruição das noções tradicionais de bom gosto, e a libertação das amarras da racionalidade e do materialismo. Ball explicou sua nova linguagem em Flucht aus der Zeif:

Levamos a plasticidade da palavra a um ponto que dificilmente poderá ser suplantado. Esse resultado foi obtido à custa da sentença logicamente cons­truída e racional... As pessoas podem sorrir, se assim quiserem; a linguagem nos agradecerá por nosso zelo, mesmo que não haja quaisquer resultados diretamente visíveis. Incutimos na palavra forças e energias que nos possibi­litam redescobrir o conceito evangélico do "verbo" (logos) como um com­plexo mágico de imagens. (pag. 102)

6. 0 Manifesto dadá de 1918 de Tzara, agressivo e niilista, assinala realmente o início de uma nova fase para o Dadá. Foi esse manifesto que seduziu Breton e obteve a adesão do grupo Littérature em Paris, e parece ter sido inspirado pela chegada a Zurique de Francis Picabia, cuja revista itinerante 391, publicada a partir de 1917 em Barcelona, Nova York, Zurique e Paris, continha os mais virulentos ataques contra praticamente tudo. O pessimismo sombrio de Pi­cabia, combinado com sua personalidade enérgica e magnética, dominou o Dadá pelo resto de sua existência. (pag. 103)

7. A não-superioridade do artista como criador era uma das preocupações fundamentais do Dadá. Ligado a isso estava todo ura complexo de idéias, interpretadas de di­ferentes maneiras por um ou outro dadáísta. Poesia e pintura podem ser pro­duzidas por qualquer um; deixou de ser requerido um determinado surto de emoção para produzir qualquer coisa; rompeu-se o cordão umbilical entre o objeto e o seu criador; não existe diferença fundamental entre o objeto feito pelo homem e o objeto feito pela máquina, e a única intervenção pessoal pos­sível numa obra é a escolha. (pag. 105)


Publicidade

8. O efeito de um objeto exposto sem qualquer implicação de gosto, bom ou mau, é desorientar o observador. Embora esses objetos industriais, produzidos em série, tenham sido artistica­mente batizados à força de ilustrarem numerosos catálogos de exposições e livros sobre arte moderna, eles ainda continuam sendo profundamente desconcertantes. "Não existe problema, não existe solução. A obra existe, e sua única razão de ser é existir. Não representa nada além do desejo do cérebro que a concebeu. (pag. 105)

9. Ao tentar evitar a interferência do gosto, que ele equipara a hábito, Du­champ produziu obras que são, na aparência, notavelmente dessemelhantes entre si, embora ocorram os mesmos temas e preocupações; e introduziu deliberadamente o acaso nessas obras. (pag. 105)

10. "A arte suprema será aquela que, em seu con­teúdo consciente, apresenta os mil vezes mil problemas do dia, a arte que foi visivelmente estraçalhada pelas explosões da semana passada, a arte que está incessantemente buscando reunir seus membros esparramados após a coli­são de ontem" (extraído do primeiro manifesto dadá alemão). (pag. 106)

Publicidade

 

contact Contato

You are here pesquisas glossário Dadá, Dadaismo