
Russolo, Carrà, Marinetti, Boccioni e Severini a Parigi nel 1912
Fichamento do Livro "Conceitos da Arte Moderna" NIKOS STANGOS Editor: Jorge Zahar Pág. 85 a 92. escrito por Norbert Lynton.
Sob muitos aspectos, o futurismo foi o único entre os movimentos artísticos modernos. Era italiano. Originou-se numa concepção de civilização e encontrou expressão primeiramente nas palavras; em vez de resultar de algum descontentamento com idiomas de arte herdados e da ambição de criar urn novo idioma, partiu de uma idéia geral e só com dificuldade encontrou expressão artística. De certo modo, foi o movimento mais radical, rejeitando ruidosamente todas as tradições e os valores e instituições consagrados pelo tempo. Propagou suas idéias muito rapidamente por toda a Europa, de Londres a Moscou, e foi efêmero - um episódio meteórico, cuja importância duradoura tenha sido geralmente subestimada. Escolheu o seu próprio nome - ao contrário de movimentos como o fauvismo e o cubismo, que foram assim rotulados por críticos antagonistas - e empenhou-se em fornecer seu próprio fundamento lógico de forma literária: a tradição moderna de manifestos artísticos tenha sua origem básica no futurismo. (pag. 85)
Giacomo Balla-velocidade do automóvel
[1] O poeta Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) foi o inventor do movimento. No outono de 1908, ele escreveu um manifesto que apareceu primeiro como prefácio para um volume de seus poemas, editado em Milão em Janeiro de 1909. Foi, entretanto, sua publicação em francês na primeira página de Le Figaro em 20 de fevereiro do mesmo ano que lhe propiciou o impacto que estava buscando, e esta é geralmente considerada a data de nascimento do futurismo. (pag. 85)

Texto Montagem de Marinetti
[2] Escreveu ele em seu manifesto: “Declaramos que o esplendor do mundo foi aumentado por uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corrida, sua carroceria ornamentada por grandes tubos que parecem serpentes com respiração explosiva... Um automóvel estridente que parece correr como uma metralha e mais belo do que a Vitoria alada de Samotrácia [a famosa escultura helenística no Louvre]... A beleza agora só existe na luta. Uma obra que não seja de caráter agressivo nao pode ser uma obra-prima... Queremos glorificar a guerra - a única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o ato destrutivo dos anarquistas as belas idéias pelas quais um indivíduo morre, o desprezo pelas mulheres. Queremos destruir os museus, as bibliotecas e as academias de todas as espécies, e combater o moralismo, o feminismo e todas as torpezas oportunistas e utilitárias. (pag. 85-86)
[3] Há mais, e no mesmo estilo. A veemência de Marinetti é proporcional a sua impaciência diante do desenvolvimento nacional inacabado da Itália, do peso imenso de uma tradição grandiosa que influia sobre a cultura italiana de um modo mais inibidor do que em qualquer outro país - a Itália não dera virtualmente qualquer contribuição para os progressos registrados no seculo XIX - e também, talvez, da confusão em seu próprio espírito e no de seus amigos, resultante de um súbito confronto com a grande diversidade de ten-dências contraditorias na literatura e na arte modernas. (pag. 86)
[4] Os mesmos sentimentos foram expressos, em palavras quase idênticas, num manifesto dirigido "aos jovens artistas da Itália". Foi redigido por três pintores, sob a supervisão direta de Marinetti. Eram eles: Umberto Boccioni (1882-1916), Luigi Russolo (1885-1947) e Carlo Carrà (1881-1966). Datado de 11 de fevereiro de 1910, embora escrito nos últimos dias desse mês, e divulgado ao público pela primeira vez por Boccioni, que o declamou do palco do Teatro Chiarella, em Turim, a 8 de marco, o Manifesto dos pintores futuristas exigia firmemente uma nova arte para um novo mundo e denunciava todas as vinculações das artes com o passado. Qual o caráter que deveria ter essa nova arte ficou mais claro num outro manifesto, o Manifesto técnico da pintura futurista, de Boccioni, publicado como folheto no comeco de abril:
Tudo se movimenta, tudo corre, tudo gira rapidamente. Uma figura nunca é estacionária diante de nós, mas aparece e desaparece incessantemente. Através da persistência das imagens na retina, as coisas em movimento multiplicam-se e são distorcidas, sucedendo-se umas as outras como vibrações no espaço através do qual se deslocam. (pag.87)
[5] Boccioni pouco adiantou em termos de instruções específicas sobre a maneira como essa multiplicidade de sensações seria incorporada numa tela, mas sublinhou como base essencial o sistema do divisionismo cromático desenvolvido um quarto de século antes pelos neo-impressionistas. (pag. 87)
[6] Boccioni formulou o conceito de pintor nas seguintes palavras: "Queremos representar não a impressão óptica ou analítica, mas a experiência psíquica e total", indubitavelmente a mais perspicaz definição de, pelo menos, suas intenções pessoais, sublinhando suas divergências com as preocupações essencialmente visuais de tantos outros desdobramentos modernos. E falou em seguida sobre a possibilidade de formas impermanentes de pintura, como a que poderia ser executada com holofotes e gases coloridos. (pag.88)
[7] A primeira grande mostra de pintura futurista teve lugar em Milão, inaugurada a 30 de abril de 1911. Boccioni, Russolo e Carrà enviaram 50 obras para uma exposição livre (que incluia tambem um setor de arte infantil). (pag.88)
[8] De volta a Milão, todos eles trabalharam febrilmente, reorientando bravamente seus esforços de acordo com o que tinham aprendido, sobretudo a respeito do cubismo, que, nessa época, era quase totalmente desconhecido fora de Paris. Depositavam agora menos fé no poder dos novos temas e esforçaram-se por complementar o divisionismo cromático com uma fragmentação formal de inspiração cubista. (pag 88)
[9] Aí estava um movimento que antepunha a idéia ao estilo, desafiando assim não só os valores artísticos tradicionais, mas também as ambições estéticas da arte de vanguarda mais radical. Pinturas futuristas testaram e provaram a possibilidade de usar a arte como meio de captar aspectos, tanto não-visuais quanto visuais, de um meio ambiente reconhecido como dinâmico e não como estático. (pag. 90)
[10] A ação passa através da pintura e não possui um centro. (pag. 90)
[11] Boccioni no terreno da escultura... Escreveu o seu Manifesto da escultura futurista, datando-o retroativamente de 11 de abril de 1912. Revoltado com a selva de estátuas e monumentos de bronze e pedra em que a escultura parecia estar se asfixiando, e também com a tradição greco-michelangeliana que a alimentava, Boccioni exigiu uma renovação total:
Livremo-nos de toda essa tralha e proclamemos a REJEIÇÃO ABSOLUTA E FINAL DA LINHA FINITA E DA ESTÁTUA DE FORMA FECHADA. RASGUEMOS O CORPO E TRATEMOS DE INCLUIR NELE O QUE O CERCA... Assim, uma figura pode ter um braço vestido e o outro nú, e as linhas variadas de um vaso de flores podem perseguir-se mutuamente e com plena liberdade entre as linhas de um chapéu e as de um pescoco. Assim, os pianos transparentes de vidro, de chapa metálica, arames, iluminação elétrica interior e exterior podem indicar os pianos, as direções, os tons e semitons de uma nova realidade. (pag 91)
[12] A guerra de 1914-18 precipitou o fim do futurismo. A "única higiene do mundo" eliminou Sant'Elia e Boccioni em 1916. Os restantes artistas futuristas transferiram-se para estilos e atitudes mais tradicionais. Marinetti satisfez seus ideais políticos ajudando o fascismo a conquistar o poder na Itália. Alguns adeptos mais jovens do movimento, como Prampolini, lograram levar alguns aspectos do futurismo até a década de 1930, mas várias tentativas de reavivar o futurismo depois de 1918 tiveram pouco impacto. (pag. 92)
[13] Entretanto, sua influência foi de importância fundamental e duradoura. Como o futurismo estava profundamente envolvido no cubismo, suas conquistas foram também conquistas para o cubismo. Sem a atividade dos italianos, o cubismo jamais teria desempenhado um papel tão grande na arte moderna. Ecos mais específicos do futurismo podem ser encontrados numa variedade de artistas e movimentos: o vorticismo em Londres (em 1914, Marinetti e o vorticista ingles C.R.W. Nevinson colaboraram num manifesto, Vital English Art), algumas formas de expressionismo na Alemanha, a pintura e a tipografia de vanguarda em Moscou, em torno de 1913-15, a arquitetura dos anos 1920 na Holanda, Alemanha e França. A Rússia pode ser declarada a maior devedora imediata do futurismo. Com efeito, o futurismo literário de Maiakovsky deve muito ao de Marinetti, apesar de suas concepções políticas serem substancialmente opostas, e a arte revolucionária da Rússia, sobretudo a arquitetura, e em muitos aspectos a concretização do que os milaneses tinham tentado. (pag. 92)
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