Henry Matisse - Luxe calme et volupté 1904
Fichamento do Livro: "Conceitos da Arte Moderna". Autor: NIKOS STANGOS Editor: Jorge Zahar Pág. 11 a 26. Escrito por Sarah Whitfield.
No breve período de 1904 a 1907, Henri Matisse, André Derain, Murice Vlaminck e um pequeno grupo de companheiros de estudo desenvolveram um estilo de pintura que lhes valeu o apelido de Les Fauves (As Feras). Sua evidente liberdade de expressão, através do uso de cores puras e do exagero do desenho e da perspectiva, aturdiu e deixou perplexos aqueles que viram essas obras pela primeira vez. (p. 11)
[1] De todos os movimentos artísticos do século XX, esse foi também o mais transitório e possivelmente o menos definível. Van Dongem, membro desse grupo vagamente definido, negou a existência de “qualquer espécie de doutrina”. (p. 11)
[2] Matisse era claramente o principal pintor, senão o líder do grupo; foi reconhecido como tal pela inegável superioridade de sua obra e por ser o mais velho, mas não fez qualquer tentativa de criar um movimento. (p. 11)
[3] A partir de 1905, expuseram juntos nas duas principais exposições de arte moderna realizadas anualmente em Paris, o Salão dos Independentes e o Salão de Outono. (p. 11, 12)
[4] As principais obras fauves foram pintadas por Matisse, Derian Vlaminck e, durante um breve período, Braque. (p. 12)
[5] Matisse ingressou em 1895 no ateliê de Gustave Moreau. (...) Moreau encorajava ativamente os seus estudantes a questionarem a própria obra do mestre, até a reagirem contra ela, e sobretudo a exercerem sua independência pessoal. (p. 12)
[6] A pinturas que Matisse fez de Notre-Dame têm muito pouco a ver com os efeitos atmosféricos procurados por Pissarro e Monet; as amplas áreas de tinta e a reorganização do espaço indicam a nova interpretação da realidade de que os fauves seriam em breve os pioneiros. (p. 14)
[7] (...) Ele (Vlaminck) e Derian estiveram completamente empolgados com as possibilidades de se emanciparem das limitações da cor local e, mais importante, das limitações de sua própria visão. Vlaminck, lembrando esse tempo, escreveria anos depois:
[9] As pinceladas pequenas que a técnica exigia encorajaram um método mais delicado, e em breve ele estava apto a sugerir luz e ar dixando áreas da tela sem pintura, para que o fundo branco se tornasse uma parte tão importante da composição quanto a tinta e criasse uma sensação de espaço flutuante. (p. 17)
[10] Matisse já tinha superado Gauguin e Van Gogh na intencidade da expressão, mas, à semelhança de Cézanne, faz suas cores agirem e reagirem umas às outras, embora o efeito seja mais exagerado. (p. 19)
[11] Vlaminck parece ter tentado deliberadamente trabalhar com a intuição de um primitivo e ignorar os modos convencionais de olhar. (...) Ele assim descreve suas telas desse período: “Intensifiquei todos os valores tonais e transpus para uma orquestração de cor pura cada coisa que senti. Eu era um selvagem sensível, repleto de violência.Traduzi o que via instintivamente, sem qualquer método, e transmiti a verdade, não tão artisticamente quant humanamente...” (p. 19)
[12] Essa restrição aos elementos essenciais, reduzindo o número de elementos pictóricos com que trabalhar, é um desenvolvimento crucial na carreira de Matisse, que pode ter sua origem em seus contatos com a arte não-européia e primitiva. (p. 20)
[13] O ano de 1906 foi triunfal para os fauves. O movimento atingiu sem clímax no Salão do Independentes, onde Matisse, como sempre, dominou a exposição. Expôs apenas uma tela, Joie de vivre, que supera em muito o seu trabalho de 1905. Retrospectivamente tendemos a avaliar a importância dessa tela através de Demoiselles d´Avignon, de Picasso, pintada no ano seguinte e que parece desafiar diretamente tudo o que Matisse já tinha feito. A tela de Picasso nos torna conscientes de uma característica de Matisse, a sua afinidade com a tradição literária das décadas de 1880 e 1890. (...) Matisse foi produto da era simbolista, tinha sido esse o período em que ele crescera, afinal, e essas raízes nos são relembradas amiúde durante o período inicial de sua carreira. (p. 21)
[14] Matisse publicou uma definição caracteristicamente lúcida de seus objetivos:
“ O que eu busco, acima de tudo, é expressão... A expressão, no meu modo de pensar, não consiste na paixão espelhada num rosto humano ou denunciada por um gesto violento. Toda a disposição de minha pintura é expressiva. O lugar ocupado por figuras ou objetos, o espaço vazio em torno deles, as proporções, tudo desempenha um papel. A composição é a arte de dispor, de maneira decorativa, os vários elementos à disposição do pintor para expressão de seus sentimentos. Num quadro, todas as partes serão visíveis e desempenharão o papel que lhes é atribuido, seja ele principal ou secundário. Tudo o que não é útil no quadro é prejudicial. Uma obra de arte deve ser harmoniosa em sua totalidade; pois os detalhes supérfluos , na mente do espectador, usurpariam os elementos essenciais.” (p. 22)
[16] Embora tivesse sido Denis quem declarou em 1890 – “lembrem-se de que um quadro, antes de ser um cavalo de batalha, um nu, ou alguma anedota, é essencialmente uma superfície plana coberta de cores reunidas numa certa ordem” –, coube a Matisse concretizar esta concepção potencialmente revolucionária. (p. 23)
[17] Esse uso da cor era libertador e estimulante para todos os fauves, não apenas para Vlaminck, e pode-se afirmar que, em grande parte, eles não precisavam de outra justificativa para a pintura que faziam senão o puro prazer visual poporcionado pela cor pura. (p. 24)
[18] A idéia de transcender o que via a sua frente, acima da realidade, talvez estabeleça a direção em que ele estava se distanciando do século XIX. Assim como para Vlaminck, também para Derain a cor é o tema de sua pintura, e é através desse veículo que ele tenta escapar às armadilhas da representação. (p. 24)
[19] A essa altura em 1907, Picasso e Braque estavam sugerindo novas possivbilidades visuais com as pesquisas que não tardariam muito a tornar-se o cubismo, e Derain sentiu-se naturalmente inclinado a simpatizar com seus propósitos, embora nunca se engajasse pessoalmente ao movimento cubista. (p. 26)
[20] Braque sempre considerou essa fase transitória e talvez seja esse o modo como nós também deveríamos encarar o fauvismo. Nunca foi um movimento com objetivos que pudessem ser realizados, como foi o caso do cubismo, mas um processo espasmódico de experimentação, a partir de possibilidades sugeridas pelos pintores pós-impressionistas.
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