DESARTE. Linguagens Visuais! Arte Blog.

flickr facebook twitter tumblr feed

Rococó, Estilo


Compartilhe Arte! Divulgue!

Resumo:
Estilo nascido na França por volta de 1730 (Luis XV) e que na história das artes decorativas sucede o Barroco. Caracteriza-se pela assimetria, pelas curvas em 'S' pelas volutas livres e acentuadas, presença de cores claras e decoração dourada, pela harmoniosa combinação de motivos inspirados na natureza (pássaros, flores, folhagens, ao lado de animais fabulosos), preferência por formas leves e movimentadas em vez de outras sólidas, geométricas. O tempo do Rococó conscide com o início da industria da porcelana na Europa.

(via: Dicionário das Artes Decorativas e Decoração de Interiores. Autores: Moutinho, STELLA Rodrigo Octavio - PRADO, Rubia Braz Bueno do - LONDRES, Ruth Rodrigo Octavio. Ed. Nova Fronteira. 1999)


Fragonard_O_Balanco_1767
Fragonard - O Balanço

 Fichamento:
 [1]  
O século XVIII caracteriza-se por um crescente processo de secularização que ocorre não apenas no nível das idéias, mas também no nível das artes, dos costumes, da vida em geral. Tal processo significa um distanciamento, cada vez maior, ou mesmo uma tentativa de ruptura com a instância divina e o caráter teológico-metafísico que tanto marcam o século precedente. Dois grandes fatores influem nesta mudança de atitude: os avanços da ciência, com Newton, e o Empirismo Inglês. Para John Locke, as ideias derivam exclusivamente da experiência que se tem do real. Somente a partir das sensações a alma produz idéias. A experiência do sensível é absolutamente necessária uma vez que proporciona a matéria sobre a qual a alma pensa. Deste modo, Locke rejeita o princípio das idéias inatas que dão margem a especulações de cunho teológico e o sentir ganha importância fundamental no desenvolvimento do pensamento.

[2] A promoção da experiência sensível logo é observada na arte do início do século: o Rococó. Tal experiência realiza-se através do prazer, meio de se alcançar a felicidade. Considerando que todo homem busca a felicidade, mesmo aquele que vai se enforcar, segundo Pascal, não se pode ter o hedonismo como próprio ao século XVIII, mas por outro lado, não se compreende o Rococó sem este fundo hedonista. Persegue-se a experiência do prazer por ele mesmo. A nova vivência do prazer provoca uma nova concepção de vida social onde os valores mundanos são legitimados e a consciência torna-se livre para experimentar o desconhecido. Através do prazer o homem reclama sua excelência e passa a ter por fim ele mesmo. Tem-se um novo ideal moral que entende o prazer como princípio fundamental, não mais como conseqüência de uma ação virtuosa, logo não se faz necessário justificá-Io.

[3] No plano da arte, o prazer não é fruto de um pré-julgamento racional. É anterior, apreendido por uma intuição imediata. O abade Du Bos, cuja obra "Reflexões Críticas sobre a poesia e a Pintura" (1718) exerce grande influência sobre sua época, defende que o deleite de uma bela obra dá-se antes de qualquer reflexão. O raciocínio explica tal deleite aposieriori, ou seja, apenas legitima um prazer já sentido.

[4] É a primazia do sensível que tem como grande' defensor Diderot. Para o filósofo, a observação estética pertence à categoria da percepção sensível, ou seja, ela desencadeia a participação ativa da imaginação, e não só da razão. A imaginação ocupa papel significativo neste momento, pois viabiliza o universo rococó, sobretudo o pictórico: é o mundo imaginário de uma felicidade desejada. A celebração deste mundo fictício tem sua maior expressão na pintura de Antoine Watteau (1684-1721), pintor que melhor sintetiza a arte do período.

[5] Uma vez que o mais importante é o prazer pessoal, tudo que está ligado diretamente à pessoa como móveis, vestuário, decoração interior tem sua importância aumentada. Se o gosto está submetido a um prazer individual, logo se reclamará o novo, a surpresa, a variedade. Daí a rápida sucessão das modas. O Rococó é uma arte do luxo que comanda a satisfação dos apetites, é uma arte da "saciedade". Contudo, o luxo rococó é menos para ostentar que para confortar, é mais um meio de prazer - o que explica o surgimento nessa época do gosto pelos ambientes íntimos, os petits appartements, e pela decoração interior. Diderot defende a inocência do luxo quando a serviço do prazer, e o acusa de maléfico se destinado à ostentação.

[6] O prazer faz parte do sentir; se é sobre a matéria sensível que se constrói o pensamento, se pensar é o meio de se tomar consciência da existência humana, logo a busca do prazer é um meio pelo qual o homem pode adquirir consciência de sua humanidade. Assim, a felicidade está estreitamente ligada à consciência da existência e como o prazer é efêmero, faz-se necessário multiplicar e renovar as sensações e, conseqüentemente, os pensamentos. Portanto, persegue-se o prazer mas sua fruição é um instante que logo se esgota. A arte deste período é a arte do instante, de expressão fugidia que não descreve cenas sucessivas, mas apresenta a sensação de um só momento. Não há um tempo cronológico em um sentido linear, o tempo é o agora. Tudo se apresenta a um só momento. É a valorização absoluta do presente. Um tempo reduzido a instante que não se fixa, um instante que imediatamente se esgota e, em conseqüência, se multiplica.

[7]  Tal temporalidade reduzida a um ponto sempre fugidio é simbolo de todas as experiências nesse período: é o tempo da conversação, o tempo da festa e também o tempo da pintura. O fugaz é o grande tema da pintura. Watteau pinta a graça do instante, aquele breve momento que não mais voltará. Suas figuras humanas encontram-se em atitudes que não duram mais que segundos como um passo de dança, um gesto gracioso e espontâneo ou mesmo um olhar. O mesmo faz com suas paisagens, iluminadas por um raio que logo desaparece. Prefere as cenas ao ar livre as de interior, pois ao pintar a luz do sol, o movimento das árvores provocado pela brisa, enfim, todo aquele movimento da natureza que não pode ser percebido em ambientes fechados, capta melhor o instante. Já as cenas de interior não lhe proporcionam a gama de recursos que o tomam o "poeta do fugaz".

[8] "O Balanço"ainda não tem o ritmo acelerado da pincelada, já contém a verdadeira idéia que regerá sua arte. O tema se desvanece, o olhar é imediatamente atraído para a dama do balanço iluminada por um breve raio de sol que ressalta o confuso, mas não menos encantador, desalinho de suas saias, A cena acontece no breve instante do "vôo" do balanço cujo movimento é completado pelo arabesco de um ramo de árvore retorcido. 

[9] A busca do prazer e a conseqüente temporalidade reduzida ao instante não são observadas apenas na pintura. Encontram-se presentes em meio àquela sociedade para a qual a arte rococó é produzida, ou seja, a aristocracia e a alta burguesia. Assim, inaugura-se o reino dos salões onde a vida mundana é consagrada. Esta é a época por excelência da sociabilidade que se realiza sob o signo da cortesia. O salão, assim como o teatro e o amor, é O melhor veículo para o exercício da sociabilidade. Nestes ambientes dedicados ao gozo, os sábios e os artistas são muito bem acolhidos sendo mesmo peças importantes neste jogo onde não há perdedores. Mais que as posses, o que se valoriza é "ter espírito", ser capaz de estimular a boa conversa. 

[10] A mulher é a alma da sociedade por sua ligeireza e graça: "o desejo de agradar é a razão da promoção do belo sexo". Tal valorização tem seu paralelo na arte bastante feminina do rococó (9), cheia de ornatos frágeis e delicados. Também o amor sensual, frívolo, torna-se tema geral para a arte. Fragonard, por exemplo, pinta todas as variações do amor: o amor alegre, apaixonado e sereno. Pinta desde o amor ligeiro de "O Balanço", a volúpia de "Juras de Amor", a sensualidade de "O Ferrolho", o lirismo dos amantes de "A Fonte", a graça e harmonia de "Cartas de Amor", e até mesmo o amor materno de "O Berço".

[11] Mesclada àquela inspiração arcádica tem-se a exaltação da galanteria: "tipo particular da relação social na qual as relações amorosas reivindicam suas características distintivas". A galanteria permeia todas as atividades tanto no que se refere às relações sociais quanto às artes. Surge um novo ideal de amor: um amor devoto ao prazer sensível, mas que não pode ser acusado de libertino, ou melhor, o amor confere à libertinagem certo tom de decência. A proximidade entre as artes e a galanteria é tão marcante que. a Academia Francesa confere aos pintores do idílio amoroso o título especial de "pintor de festas galantes", tendo sido Watteau o primeiro a receber o título.
 
[12] A pintura rococó valoriza bastante os vestidos das damas, as cores delicadas e irisadas das sedas, os toucados que favorecem os rostos ou um simples ato de beijar a mão. Soma a tais elementos uma ligeira desordem no vestuário, como devido ao acaso. Aí encontra artifícios que contribuem para criar não só a atmosfera galante, como uma certa atmosfera erótica. O erotismo rococó é "epidérmico e espiritual". A própria "erotização" da mitologia é uma de suas características. Para sobreviver a pintura mitológica deve transformar-se [...] As cenas mitológicas representadas nas pinturas rococós não são reverência às divindades, e sim reverência ao prazer [...] O que os pintores buscam nas divindades são seus atributos sensíveis [...] Quando as cenas mitológicas não são representadas diretamente, são evoca das de algum modo. Com freqüência estátuas das divindades pagãs figuram nos bosques das pinturas da época. Tais estátuas não apenas testemunham os prazeres, mas são elas mesmas figuras de prazer.

[13] No movimento da arquitetura, quando a corte transfere-se para a cidade, o decorativo sobrepõe-se ao construtivo.

[14] O teatro é também grande forma de expressão desta sociedade que tem na comédia a principal forma cênica. Watteau tem uma estreita relação com o teatro, contudo, não por seu caráter narrativo, no sentido em que as cenas se sucedem, e sim por seu caráter efêmero. Suas figuras são personagens do teatro, e chega mesmo a vesti-Ias com os respectivos trajes, como em "Queres Triunfar sobre as Belas ... " onde aparece um Arlequim. Cenas de comédia e cenas galantes confundem-se não havendo nada que demonstre tratar-se de uma encenação teatral, exceto por ocasionais detalhes como vestes de ator. 

[15]  Com o enfraquecimento da monarquia - devido a uma série de fatores que levarão à Revolução Francesa - o Rococó também esmorece. Arte notadamente aristocrática, pode-se dizer que é a imagem de uma sociedade que quer brilhar. Todavia, o Rococó, cujas qualidades relacionam-se com a imaginação e a sencibilidade, situa-se no início do processo de libertação das tutelas que caracteriza a eramoderna.

 

Fichamento do artigo publicado na Revista Gávea n.13 Rio de Janeior, PUC, 1995 por Raquel  Quinet Pifano.

 


Publicidade

Publicidade

 

contact Contato

You are here pesquisas glossário Rococó, Estilo