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Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. III. O Destino da Arte. A Estética e o destino da arte


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Antonio_Ciseri_-_Il_trasporto_di_Cristo_al_sepolcro
Antonio Ciseri: Traslado do corpo de Jesus ao sepulcro, 1864-1870. Santuário della Madonna del Sasso

II. A ESTÉTICA E O DESTINO DA ARTE

[1] O belo é, pois, o produto do espírito e o belo natural (do organismo vivo) é, de fato, uma exteriorização confusa do espírito. O belo pode, por conseguinte, ser o objeto de uma ciência. Hegel justifica assim sua postura contra aqueles que, sublinhando o caráter intuitivo, afetivo, irracional, da experiência estética, desejariam opor a arte à filosofia e ao conceito. Ora, a arte pode ser objeto de uma ciência (obra do espírito) porque ela também é a obra do espírito que toma consciência de si mesmo. Mas trata-se aqui de uma ciência particular.

[2] A estética, ou seja, a filosofia da arte, é uma ciência particular que deve partir de pressuposições cuja necessidade só pode ser provada e demonstrada pelo conjunto do sistema.

[3] O conceito verdadeiramente científico (sistemático) do belo ,não é dado no começo (a priori), diante de nós. É por isso que Hegel parte de representações correntes relativas à arte e ao belo, antes de chegar a uma idéia geral do belo que, por um movimento de determinação interna (Int., p.26), irá tornar-se cada vez precisa: a idéia do belo (artístico) desenvolver-se-á em três categorias de arte (arte simbólica, clássica e romântica), as quais se definirão a si mesmas, de modo preciso, num sistema ainda mais concreto, o das diferentes artes: arquitetura, escultura, pintura, música, poesia.

[4] Por um encontro tipicamente hegeliano, a idéia do belo, ao expor suas determinações internas, coloca-nos na presença de uma história da arte intimamente ligada a uma história das religiões.

[5] "A arte, de acordo com o seu conceito, tem por única missão tornar presente de modo concreto o que possui um conteúdo rico, e a tarefa principal da filosofia da arte consiste em apreender pelo pensamento a essência e a natureza daquilo que possui esse conteúdo e de sua expressão em beleza" (Arte romântica, p. 155).

[6] Hegel constata que a cultura moderna é estranha à verdadeira arte (Int., p. 33). A arte já não possui para nós a alta destinação que tinha outrora. Tornou-se um objeto de representação e de reflexão, e deixou de ter aquele imediatismo e aquela plenitude vital que a caracterizavam na época de sua grandeza, com os gregos.

[7] A cultura moderna, burguesa, é inteiramente dominada pela abstração da regra geral e da lei: de um lado, os indivíduos com suas paixões e seus fins particulares, do outro, o dever, o direito, a lei, universal mas abstrata. Essa cultura prosaica e jurídica é estranha à arte em si, em sua essência, e é ela que, de fato, põe fim à arte quando a arte romântica se dissolve.

[8] "A obra de arte (...) é incapaz de satisfazer a nossa necessidade fundamental de absoluto." A arte opera, de fato, sobre uma matéria sensível. Ora, a idéia de liberdade, graças à espiritualidade cristã, possui agora uma significação mais profunda, que já não se presta à expressão sensível. É por isso que "na hierarquia dos meios que servem para exprimir o absoluto, a religião e a cultura decorrente da razão ocupam o lugar mais elevado, muito superior ao da arte"

 

[9] Se a arte é um produto do espírito ou, mais exatamente, uma das formas em que o espírito se manifesta, é claro que a obra de arte não tem por objetivo descrever uma realidade já dada, acabada e, portanto, imperfeita, nem propiciar prazer àguele que a contempla. A Arte será, na linguagem de Hegel, um interior que procura exteriorizar-se, um conteúdo que busca uma forma, um sentido que quer tornar-se sensível (A ideia do belo, p.67), uma substância "complacente" (Arquitetura, p.13) que se manifesta. Platão condenava a arte porque era uma mentira e uma aparência, mas a verdade poderá dispensar a aparência? "Não esqueçamos que toda essência, toda verdade, para não ficar na abstração pura, deve aparecer" (Int., p.37).

[10] Primeira encarnação do espírito, a arte confunde-se, pois, pelo seu conteúdo, com a religião, e a parte central da Estética (as três formas de arte) pode ser lida como uma história das religiões que explica mais claramente o destino da arte. Assim a religião grega, que é o conteúdo da arte clássica, não é dissociável da arte grega, que é a manifestação daquela. Heródoto dizia, numa fórmula que Hegel cita com frequencia, terem sido Homero e Hesíodo que deram aos gregos seus deuses. De fato, o panteão grego só existe pelas estátuas que os artistas criaram por um trabalho livre de tansformação. O homem adora o que sua mão modelou e esculpiu: o paradoxo da idolatria denunciada pelos profetas da Bíblia torna-se a realização suprema do gênio "poético", em outras palavras, do gênio criador do povo grego.

[11] O problema essencial passa então a ser o seguinte: como se transita de uma religião cujo conteúdo é indissociável da representação artística, para uma arte "romântica" cujo conteúdo, a religião cristã, é revelado independentemente da arte? Os deuses gregos eram deuses representados na pedra ou no bronze. O novo deus será um deus real, de carne e sangue, que participa realmente do espírito... A fé cristã é auto-suficiente, encontra em si mesma a prova de sua verdade... A religião cristã, comparada com a religião dos gregos, que tinha, no entanto, separado o divino da animalidade, apresenta-se como antropomórfica em grau extremo. O divino manifesta-se sob a forma (necessariamente artística, fabricada, não-natural) de uma individualidade aflita que sofre e morre... A arte é necessária, portanto, à religião cristã (que lhe dita, em parte, sua iconografia, e o fim da arte em nosso mundo prosaico significa também que a própria religião cristã está superada e que o Absoluto de que fala Hegel já não é, de fato, o Deus dos cristãos


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