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Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. III. O Destino da Arte. A Imitação da Natureza


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Vermeer_The_Milkmaid
Johannes Vermeer. A Leiteira. 1658-1660

I. A IMITAÇÃO DA NATUREZA
 

[1] Em Kant, como se recordará, a beleza da natureza desempenhava, pelo contrário, um papel essencial. A exuberância luxuriante da floresta tropical, a beleza das flores selvagens e do canto dos pássaros davam ao espírito uma oportunidade para experimentar a concordância da imaginação e do entendimento, numa .contemplação da natureza que não era, misteriosamente, um conhecimento por conceitos. Hegel repudia, pelo contrário, o belo natural. "O belo artístico é superior ao belo natural, porque é um produto do espírito" tlnt., p. 10). Ora, o espírito é superior à natureza. Existe, por certo, um belo natural no ser vivo, dado que, "enquanto idéia sensível e objetiva, a vida que anima a natureza é bela" (A idéia do belo, p. 59). A vida, com efeito, realiza uma reconciliação, no organismo, entre as diferenças reais (os membros) e a unidade ideal e escondida do todo. O organismo vivo é, portanto, belo, já que o belo é uma "Idéia", no sentido de Hegel; em outras palavras, "a unidade imediata de um conceito e de sua realidade, na medida em que essa unidade se apresenta em sua manifestação real e sensível". Mas a beleza de um organismo simultaneamente uno e diverso é uma beleza para nós. Ela não é em si para si.

[2]Se o belo natural é inferior ao belo artístico, ou seja, ao produto do espírito, a arte não poderá ser uma imitação da natureza.

[3]"...O homem mostra melhor sua habilidade nas produções que surgem do espírito do que na imitação da natureza (Int., p.46).

[4]A crítica da imitação da natureza é o ponto de partida necessário da filosofia da arte. Pois ela permite ver que a arte extrai essencialmente seu valor de sua origem humana, pelo fato de ser um produto do espírito. E o espírito deve separar-se da natureza, negá-la, antes de descobrir nela o seu reflexo. A arte, nesse sentido, é uma das vias pelas quais o homem, enquanto espírito, se separa da natureza.

[5]A pintura holandesa, à qual Hegel consagra uma das mais belas páginas da 'Estética', não apresenta a descrição realista da existência mais prosaica, da menos "ideal" possível? Mas também nesse caso não nos devemos iludir com a semelhança objetiva e o conteúdo trivial. Hegel aponta, pelo contrário, nessa grande pintura, a alegria que os holandeses extraíam da própria vida, em suas manifestações mais vulgares e menos importantes... Do mesmo modo, os pintores atribuem uma grande importância à reprodução dos reflexos e das aparências mais fugidias (a cintilação do metal, o brilho de um tecido, das nuvens, o gesto de uma donzela), porque a ilusão realista prova a "habilidade subjetiva" e celebra, efetivamente, "O triunfo da arte sobre o lado caduco e perecível da vida e da natureza". A pintura holandesa, tão realista e prosaica, é na realidade o troféu de duas vitórias, uma das quais, a de todo um povo sobre a natureza e na história, constitui fulgurante manifestação do espírito, na acepção de Hegel.

(Fichamento: Filosofia da Arte, Jean Lacoste, Jorge Zahar Editor)


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