
O Juramento dos Horácios, por Jacques-Louis David, 1784, Museu do Louvre, Paris.
"Esta obra é dedicada à estética, quer dizer: à filosofia, à ciência do belo e, mais precisamente, do belo artístico, pois dela se exclui o belo natural" int.,p. 19).* A primeira frase das monumentais Lições sobre estética, de Hegel, proclama a ruptura com Kant, para quem (1790, § 60) "não há nem pode haver nenhuma ciência do belo". Desprezando a etimologia, a estética torna-se em Hegel a filosofia do belo, e o belo já não é um julgamento de origem subjetiva mas uma Idéia que existe na realidade, em obras de arte reais e históricas. "Inicialmente, temos diante de nós uma única representação, a saber, que existem obras de arte" int., p. 19).
Hegel reconhece em Kant, porém, o mérito de ter encarado a arte, pela primeira vez, de um ponto de vista filosófico; esse despertar está ligado ao despertar da filosofia em geral, o que permitiu conferir à arte sua verdadeira dignidade. Kant mostrou, na verdade, que a arte tinha uma função de reconciliação, que ela fazia esperar uma harmonia entre o espírito e a natureza. Kant foi o primeiro que tentou superar a oposição entre a generalidade abstrata e o particular, entre o pensamento e a realidade. Mas Kant manteve-se num ponto de vista subjetivo. Essa conciliação é a obra enigmática das faculdades do sujeito, ao passo que, segundo Hegel, ela está de acordo com a realidade e a verdade, essa conciliação já está realizada, em si.
A arte e o belo vão, pois, escapar aos limites do julgamento subjetivo e do "gênio". Terão uma missão que suplanta, de longe, o julgamento consciente de um sujeito individual, já que "a arte é uma forma particular sob a qual o espírito se manifesta". Ora, o espírito, em Hegel, como o mostra a Fenomenologia do espírito, não está limitado a um sujeito individual. É, pelo contrário, a comunidade dos homens que toma consciência de si mesma na História. A arte será, portanto, com a religião e a filosofia, uma das manifestações do espírito. E o belo será a manifestação sensível, numa obra de arte histórica, desse espírito (Geist).
(Fichamento: Filosofia da Arte, Jean Lacoste, Jorge Zahar Editor. )
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