Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.
III. ARTE E VONTADE
[1] Antes de Hegel, desde 1819, Schopenhauer parece abrir uma era nova com um sistema metafísico que reconhece "a importância freqüentemente desconhecida e a alta dignidade de arte" (O mundo [ed. francesa], p. 340). e um sistema das belas-artes que confere um lugar essencial à música, "reprodução da própria vontade" (p. 329). Mas Schopenhauer parece, sobretudo, "platonizar" e só celebrar a arte para melhor a trair, em nome de um ascetismo superior que só pode ver nela "uma consolação provisória" (p. 341). A sua influência, enfim, foi enorme na Alemanha, sobretudo na segunda metade do século XIX (o Wotan de Wagner é um personagem schopenhaueriano que, em todo o caso, aprende a renúncia), mas Nietzsche, seu mais brilhante discípulo, s6 retomará a linguagem dele para formular, em A origem da tragédia, um pensamento radicalmente oposto.
[2] Mais claramente ainda que em Kant, a questão da arte, que surge no livro 111 ("0 mundo como representação, segundo ponto de vista"), aduz sua necessidade do sistema em sua íntegra. O livro I estuda já o mundo como representação, como "objeto colocado em face de um sujeito" (p. 219), mas essa representação está submetida ao princípio de razão sob suas quatro formas. Nesse estágio, o indivíduo permanece prisioneiro do mundo dos fenômenos e das relações. Nessa Caverna platônica reinam a ilusão do devir e o principium individuationis que separa os seres no espaço e na sucessão temporal, o "véu de Maya" de que falam os Vedas (cf. Hegel, Arte simbólica [ed. francesa], pp. 60, 113). Mas o homem pode libertar-se da ilusão do múltiplo. A experiência da vontade em seu próprio corpo permite-lhe reencontrar a essência do mundo, chamada "vontade" por analogia. Essa experiência íntima da coisa em si em sua unidade (comparável à da durée hergsoniana) escapa ao princípio de razão e, portanto, à necessidade da causalidade, A vontade é sem razão (grundlos), é um esforço sem fim, lancinante e cego, que anima a natureza inteira e que se manifesta no homem pelo desejo de se perpetuar, por essa sexualidade reprodutora que, segundo Schopenhauer, é a chave do amor (p. 1319). O livro II revela-nos, pois, que o mundo tem uma unidade porque ele é a "objetidade", a manifestação da vontade, esse tema escondido 'de todas as variações, que toma consciência de si mesmo ao descobrir-se nessa imagem especular. A unidade-em-si da vontade, do ser fora do qual nada existe, opõe-se assim à dupla multiplicidade das "emanações" (Plotino). [...] Essas Idéias inalteráveis, sempre idênticas a si mesmas, fora do tempo e do espaço e, portanto, independentes do princípio de razão (p. 220) (forças da natu reza, espécies vegeta is e animais, caracteres}, vão constituir o objeto essencial da arte, a qual se apresenta agora como um novo tipo de conhecimento.
[3] O conhecimento. (intuitivo ou racional) em ação na vida prática e na ciência, o qual está submetido ao princ ípio da razão, nada mais é (um pouco como a inteligência em Bergson) do que um instrumento a serviço da vida, uma mêkhanê (p. 199) indispensável à conservação do indivíduo e à propagação da espécie. Mas "em alguns homens o conhecimento pode libertar-se dessa servidão, rejeitar esse jugo e conservar-se puramente ele mesmo, independente de qualquer objetivo voluntário, como um puro e claro espelho do mundo; é dar que procede a arte" (p. 201). Platão censurava à pintura e à poesia a imitação de coisas singulares. Schopenhauer salva-as dessa condenação, fazendo delas o espelho das próprias Idéias (p.273). [...] É, em primeiro lugar, conhecimento e contemplação, theoría, e só dá nascimento a uma obra a fim de comunicar esse conhecimento. Essa contemplação deve, além disso, ter conseqüências práticas, na medida em que o conhecimento das Idéias representa uma etapa num processo de libertação que encontrará seu termo com o niilismo sereno que conclui o livro IV ("Chegando a conhecer-se a si mesma, a vontade de viver afirma-se, depois nega-se"): "Doravante, tudo o que resta diante de nós é o nada.
[4] O prazer estético de que fala Schopenhauer é muito "interessante", pois é o prazer que nasce da cessação da dor. E o querer-viver é dor. Por outro lado, esse prazer estético, se se opõe como em Kant ao conhecimento por conceitos, constitui um conhecimento objetivo da natureza.
[5] "O gênio, diz ele, consiste na aptidão para libertar-se do princípio de razão, (. .. ) para reconhecer as Idéias" (p, 250). Essa aptidão, que existe, pouco ou mu ito, em todos os homens, converte-se, porém, quando desenvolvida, numa anomalia (p. 1105), próxima da loucura (p. 247). Mas a raridade do gênio não provém da riqueza de uma subjetividade criadora. O gênio, ao contrário, definir-se-á pela objetividade (All beauty is truth - toda beleza é verdade, já dizia Shaftesbury, cf. Cassirer, p. 310). O intelecto liberto da vontade, que caracteriza o gênio, contempla um outro mundo que não o do resto dos homens prisioneiros de seus desejos. A loucura do gênio não é o preço de seu poder criador (infra , p. 61), mas a conseqüência de sua solidão: Schopenhauer evoca, a esse respeito.. "as zombarias que acolhem na caverna aqueles que viram a luz do sol" (p. 246). [...] Kant, pelo contrário, e de maneira mais profunda, definia o gênio pela obra, e esta, na medida em que é bela e original, pela paradoxal unanimidade que ela faz nascer.
[6] "É a contemplação pura, é o arrebatamento da intuição, é a confusão do sujeito e do objeto, é o esquecimento de toda individualidade, é a supressão desse conhecimento que obedece ao princfpio da razão e que apenas concebe relações; é o momento em que uma única e idêntica transformação faz da coisa particular contemplada a Idéia de sua espécie, e do indivíduo conhecedor o sujeito puro de um conhecimento liberto da vontade" (p. 253).
[7] A arte, enquanto representação, contemplação por um olhar puro, responde, de fato, a uma espécie de apelo inconsiente da vontade. A beleza da natureza "trai o seu desejo de passar do mundo da vontade cega para o da representação" (p, 259). [...] . O objeto sublime ameaça, com efeito, a vontade individual que a beleza reduz ao silêncio[...] Ele percebe-se como indivíduo, como manifestação efêmera da vontade, e possui, ao mesmo tempo, consciência de si mesmo como sujeito conhecedor eterno e sereno. Pelo contrário, é bonito o que lisonjeia e estimula a vontade: os nus ou as vitualhas das naturezas-mortas holandesas (p.268).
[8] A tragédia, que é um espetáculo sublime, estará, portanto, no ápice de uma hierarquia das artes que, de fato, está calcada sobre a hierarquia das Idéias na natureza. A arquitetura, a arte das fontes e dos jardins somente nos fazem conhecer Idéias inferiores (o peso, a resistência, o crescimento de seres orgânicos). A escultura e a pintura fazem aparecer com os animais e os homens Idéias que são objetivações mais manifestas da vontade. Assim, "a pintura histórica ( ... ) tem por objeto principal o caráter ( ... ), a representação da vontade em seu mais alto grau de objetividade" (p. 295). Mas a tragédia tem o privilégio paradoxal, com a pintura de inspiração cristã, de nos mostrar o espetáculo do esmagamento da vontade, de sua conversão e de seu suicídio. Com efeito, a tragédia deve revelar-nos "0 lado terrível da vida, as dores sem nome, as angústias da humanidade, o triunfo dos maus, o poder de um acaso que parece zombar de nós, a derrota irremediável do justo e do inocente" (p. 233). Ela reencontra então a sua verdadeira função catártica, porque a piedade e o temor que deve inspirar, segundo Aristóteles (Poética, 1449 b 27), não podem, por si mesmos, suscitar prazer. Essas paixões são meios a serviço de um fim: a identificação com um herói trágico, com um ser excepcional que conseguiu furar o véu de Maya do individualismo e do eqoísmo, e que logra assim alcançar a resignação. Segundo essa definição, que só pode valer para o drama moderno (Shakespeare, Calderon, Schiller), que Schopenhauer, aliás, prefere às obras gregas, a tragédia deve ser, portanto, para o espectador, a escola da renúncia e da penitência, visto que, como diz Calderon em A vida é sonho, "0 maior crime do homem é ter nascido".
[9] Pensando em Nietzsche[...] A música não é, como as outras artes, uma cópia das Idéias em que a vontade se objetiva, mas uma reprodução da própria vontade. [...] A música revela-nos imediatamente a essência do mundo, o desejo, mas não pode libertar-nos dele. A tragédia, com seus caracteres e sua ação, pode, pelo contrário, tornar-se um argumento contra a vida e dar-nos ma imagem da renúncia: Wotan, por exemplo.
[10] Mas somente uma imagem. A arte, em seu apogeu, encontra aí o seu limite: ele deve ser superado, porquanto, singularmente, é apenas uma contemplação (cf. Platão, Rep.,599 b). É necessário que a imagem se torne realidade, que nos conduza ao exercício atual da renúncia, pois só esta pode definitivamente pôr fim ao império da vontade. [...] As duas maneiras pela qual a arte é ultrapassada: a piedade, que descobre a unidade de todos os seres e de todos os sofrimentos [...] e o ascetismo, a negação de querer-viver, que é a colocação em prática da renuncia trágica. [...] A própria obra representa aos olhos de Schopenhauer a tentação última do artista, aquela que surge quando sua visão, em vez de ser posta em prática, lhe dá ainda o desejo de gerar uma obra!
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