Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.
III.O GÊNIO E AS BELAS-ARTES
[1] A arte (na acepção geral de técnica) opõe-se à natureza. Mas como poder, na medida em que supõe uma habilidade, distingue-se também do saber, da ciência. Do mesmo modo que o gosto escapa ao saber, a prática não se deixa reduzir à teoria. Enfim, a arte é distinta do ofício, pois a arte é liberal (freie) e o ofício mercenário. A arte é um jogo agradável, mesmo que deva comportar alguma obrigação "mecânica" e algum aspecto escolar: a separação entre artesão e artista é tão nítida quanto a distinção entre o belo e o útil. Mas as próprias artes serão divididas, graças à análise do gosto, em artes mecânicas (de aplicação) e em artes estéticas (as que têm por fim imediato o sentimento de prazer); e estas, por sua vez, em artes de concordância (que têm por objetivo o gozo que nasce de sensações) e em belas-artes (as que contribuem para "a cultura das faculdades da alma, em vista da comunicação na sociedade").
[2] Agora, a definição de belas-artes, as quais se destacam das artes de concordância porque têm por critério o julgamento de gosto (o julgamento estético de reflexão), parece reservar a beleza para as obras humanas. Mas as belas-artes devem possuir a aparência da natureza, sem procurar esconder, entretanto, sua natureza artificial.
[3] As belas-artes são as artes do gênio. Ora, o gênio ou espírito (o ingenium, cuja noção remonta a Shaftesbury, Cassirer, p. 310) é um "talento", um "dom natural", uma "faculdade produtiva inata" do artista. Com efeito, na medida em que fazem parte da arte em geral, e portanto da produção intencional, as belas-artes supõem regras que permitem conceber a possibilidade de seus produtos. Mas porque se trata de artes do belo, definidas pelo julgamento estético refletido, essas regras não poderiam vir do entendimento. Assim, "o gênio é a disposição inata do espírito pela qual a natureza fornece as regras à arte" (1790, p. 138). Daí o paradoxo do gênio que deve ser simultaneamente original (porquanto não pode nascer da aprendizagem de certas regras) e exemplar, dado que suas obras podem tornar-se modelos que servirão aos outros de regra de julgamento aduzida a posteriori.
[4] Assim como o gosto é singular, pois exprime o sentimento de prazer de um indivíduo diante de um objeto individual, e postula ao mesmo tempo um assentimento universal, também, do mesmo modo, o gênio é singular, original e, ao mesmo tempo, exemplar[...] Por aí recebem as belas-artes uma importância inteiramente nova em Kant. Elas parecem estar vinculadas à natureza pelo gênio, já que Kant quer, sobretudo, distingui-las de toda e qualquer ciência intelectual, ou seja, de todo e qualquer método previamente conhecido. Na medida em que são artes, dependem ainda do entendimento, mas, enquanto artes do gênio, caracterizam-se sobretudo pela expressão de Idéias estéticas, de representações da imaginação que dão muito a pensar sem que nenhum pensamento determinado possa ser-lhes adequado, contrariamente à Idéia da razão, que é um conceito ao qual nenhuma representação da imaginação pode ser adequado.
[5] A Critica da faculdade de julgar estética culmina, pois, numa tríplice emancipação: (1) a emancipação do amador que não é guiado, na contemplação da beleza, por nenhum cânone. O gosto, subjetivo ("estético") e individual está puro de toda ciência e de toda regra abstrata. O gosto cultiva-se sem se aprender; (2) a emancipação do criador que o seu gênio, original e exemplar ao mesmo tempo, arranca à condição do artesão que recebe uma encomenda, que a executa em sua oficina e que vende um produto acabado. Com Kant, surge uma concepção nova do artista, a qual corresponde a uma revolução histórica: a divisão das antigas "artes mecânicas" em artes do gênio, ou seja, do criador solitário e original, que buscará sua liberdade nas paisagens da natureza, e em artes de aplicação, nas quais reina a técnica, a manufatura e em breve a produção industrial. Doravante, o status do artista tomar-se-à problemático (Hegel, Balzac, Baudelaire, Schopenhauer, Nietzsche); (3) a emancipação, enfim, da própria obra de arte que o gosto desinteressado, liberto do desejo e da necessidade, deixa ser em sua independência. A obra de arte, em contrapartida, longe de imitar uma natureza já visível, torna visível um mundo ainda desconhecido, como indica a passagem famosa de Poesia e verdade (11, VIII), na qual Goethe descobre no sapateiro que o aloja a atmosfera dos quadros de Van Ostade que acabara de ver no museu de Dresden.
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