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Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. II. O Problema da Estética. O Belo e o Sublime


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Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.

 

II. O BELO E O SUBLIME

 

[1] A primeira definição é deduzida da qualidade do julgamento do gosto; o belo é o objeto de uma satisfação desinteressada. Fórmula célebre, mas, a bem dizer, estranha. Com efeito, o gosto é um julgamento "estético". Opõe-se, portanto, ao julgamento "lógico", ao julgamento de conhecimento, pois relaciona-se com o que existe em nós de mais individual, de mais irredutível ao conhecimento: o sentjmento "vital" do prazer e do sofrimento. No gosto, o indivíduo não formula, portanto, um julgamento sobre o objeto; ele diz como é "afetado" por uma representacão. Mas descobre-se então que existe um prazer puro (tal como há uma intuição pura), uma satisfação (Wohlgefallen) desinteressada, a qual não está ligada à representação da existência dessa coisa.

 

[2] A beleza do objeto é, de maneira definitiva, distinta do que podem ter de agradável a fruição e o consumo de um objeto, assim como do valor que ele pode ter para a moral. Enquanto a fruição animal é interessada e o bem razoável é "interessante", a beleza apenas propicia uma satisfação livre, um favor que é nada menos do que a indiferença e deixa, pelo contrário, o objeto "subsistir livremente" (Hegel) (cf. Heidegger, Nietzsche, I, p. 126 ss.)

 

[3] A segunda definição ("É belo o que agrada universalmente sem conceito") é uma conseqüência importante da primeira. Na medida em que a satisfação que lhe deu a representação do objeto é "livre" de qualquer interesse, aquele que julga é levado a atribuir a cada um uma satisfação semelhante. Daí o paradoxo essencial do julgamento estético, do ponto de vista de sua quantidade: embora o julgamento estético não constitua um conhecimento objetivo e recaia apenas sobre relações entre a representação e o sujeito, ele é, não obstante, implicitamente considerado como válido para todos. Por essa pretensão surpreendente que será o objeto de uma "dedução", ou seja, de uma legitimação, o julgamento estético revela-nos uma universalidade subjetiva que separa definitivamente o belo do agradável... Fale-se então da beleza como de uma propriedade das coisas e exige-se a adesão dos outros. Essa universalidade subjetiva, que instaura uma comunicação paradoxal do prazer, é de importância capital para o desígnio "transcendental" de Kant, já que permite escapar, ao mesmo tempo ao empirismo (pois essa universalidade é uma Idéia, uma antecipação, e não o produto de alguma sondagem empírica) ao dogmatismo (Visto que não tem sua origem em conceitos).

 

[4] A terceira definição decorre da consideração, no julgamento estético, da relação (com um fim). Com efeito, a beleza é definida como "a forma da finalidade de um objeto, na medida em que ela é percebida neste sem representação de um fim". Essa definição da beleza como finalidade sem fim, "formal", leva-nos ao âmago do pensamento kantiano, porquanto fornece um princípio transcendental do gosto e relaciona, de fato, a beleza com a presença no objeto das marcas de uma arte... A finalidade que serve de princípio ao gosto é, portanto, uma finalidade subjetiva formal que se opõe a duas outras finalidades.

 

[5] A quarta definição da beleza: "É belo o que é reconhecido sem conceito como objeto de uma satisfação necessária." A necessidade do julgamento estético é uma necessidade exemplar, todos devem aderir a um julgamento que se apresenta como um exemplo de uma regra que não se pode enunciar. Esse quarto momento da analítica do julgamento do gosto permite definir, de maneira definitiva, o gosto como "uma faculdade de julgar de um objeto em relação com a livre legalidade da imaginação" (1790, p. 80).

 

[6] Se o sublime não era desconhecido da estética clássica (Boileau traduziu em 1674 o Tratado de Longino), somente com o ensaio de Burke (1756), porém, é que a experiência do sublime funda uma estética nova que supera a definição clássica do belo (a ordem, a harmonia, a perfeição). Ao distinguir o simples prazer (pleasure) do deleite (delight), do arrebatamento ou êxtase misturado a certa dose de terror que faz nascer o espetáculo do descomedimento e do poder da natureza, Burke coloca em evidência os limites do eudemonismo e descobre um prazer estético puro, "romântico", distinto da busca da felicidade, do gozo e do agradável. Kant retomará essa descrição, mas substituindo o ponto de vista antropológico ("fisiológico") de Burke por uma análise transcendental que explica a quantidade do julgamento estético, em outras palavras, de sua pretensão à universalidade. O sublime faz nascer em nós um "prazer negativo", Enquanto o belo dava origem a um sentimento de desabrochar da vida, o sublime é produzido por uma "sustação das forças vitais", seguida de um "desabafo". Se, por sua finalidade formal, a livre beleza natural parecia prestar-se de antemão à nossa imaginação, o espetáculo sublime (o oceano em fúria) parece violentar a nossa imaginação. De fato, o sublime não é uma qualidade dos seres naturais, porquanto ultrapassa toda e qual quer forma sensível, e tem sua fonte, na verdade, no supra-sensível que há em nós. O sublime "diz respeito apenas às Idéias da razão, as quais, embora não possam ser apresentadas de maneira adequada, são, não obstante, recordadas no espírito e reavivadas por essa mesma inadequação, cuja apresentação sensível é possíve". Portanto, o sublime não representa uma comunicação irracional com a natureza, pois que, muito pelo contrário, esse sentimento arranca o espírito ao mundo físico e o faz descobrir a sua independência. É por isso que a lei moral do dever é sublime, tal como é sublime a passagem do Antigo Testamento (Êxodo, XX, 4) que proíbe esculpir imagens de Deus (também Hegel, na Arte simbólica, associa o sublime à religião judaica). A beleza da natureza fazia-nos ver nela uma "arte", uma técnica (a finalidade formal) que permitia estabelecer uma analogia com a ação humana. O sentimento de sublime que a grandeza (sublime matemática) e a força (sublime dinâmica) suscitam no espetáculo da natureza nada nos revela, pelo contrário, a respeito da própria natureza. Ele faz-nos descobrir em nós próprios uma finalidade racional, uma destinação moral independente da natureza, e arranca-nos por um instante, dirá Schopenhauer, ao egoísmo ilusório do querer-viver individual (Le Monde, p.258 ss.).


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