Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.
O problema da arte, o qual nos parece hoje em dia começar com Kant, não está, porém, de modo explícito, no centro da obra que o formula pela primeira vez. Mesmo que na Crítica da faculdade de julgar se encontrem os elementos de toda a estética (uma definição do Belo, uma teoria do gênio e uma
classificação das belas-artes), não constituem as belas-artes o objeto essencial dessa terceira crítica (1790)... Para Kant, são belos, sobretudo, os seres naturais (as flores, o canto dos pássaros, os cristais}, Por outro lado, a arte designa geralmente em Kant a "técnica", de acordo com a tradição que faz do latim ars a tradução do grego tékhnê. Assim, a obra de arte (Kunstwerk) denomina o artefato, o produto de uma intenção, e não o objeto criado para ser belo (Kant, 1790, p. 76, nota 2).
I. O GOSTO COMO PROBLEMA
[1] A faculdade de julgar em geral é a faculdade que permite relacionar o particular com o universal... O julgamento é determinante. Em contrapartida, o julgamento reflexivo só dispõe do particular e deve encontrar o universal. O particular torna-se o exemplo que precede, para nós, a lei e permite descobri-Ia (Kant, 1789, p. 32; 1790, p. 27 ss.). O julgamento é então reflexivo. A faculdade de julgar reflexiva não permite, portanto, explicar a natureza pela aplicação determinante de um conceito; ela organiza o conhecimento que podemos ter da natureza pressupondo nela uma causalidade do conceito em relação ao seu objeto, em outras palavras, uma técnica da natureza, uma arte da natureza.
[2] Kant divide o espírito em três faculdades irredutíveis (1789, p. 76; 1790, p. 26): a) a faculdade de conhecer (com o entendimento, a razão e a faculdade de julgar; b) uma "faculdade" menos espontânea, mais receptiva, o "sentimento" de prazer e de aflição, o qual corresponde a um recrudescimento ou a uma redução das "forças vitais". (Com o "afeto", a consciência descobre a união da alma e do corpo.) Enfim, c) a faculdade de desejar (denominada "vontade" quando pode ser determinada por conceitos). Ora, cada uma dessas três faculdades do espírito está submetida à lei de uma das faculdades de conhecimento: o entendimento legisla a priori para a faculdade de conhecimento teórico como o mostrou a Crítica da razão pura especulativa e a razão legisla a priori para a faculdade de desejar (Crítica da razao prática).
[3] Como situar, de fato, o gosto? No começo, Kant encontra-se (por volta de 1770) diante de uma alternativa: é preciso escolher entre o empírico e o a priori, a sensação e o entendimento, o psicológico e o racional puro. Ora, é claro que o julgamento do gosto tende a distinguir-se do agradável puro e simples. Ele quer atingir uma certa universalidade.
[4] Tal é o problema que se apresenta a Kant quando medita sobre uma "crítica do gosto" e que ele resolve com a Critica da faculdade de julgar: encontrar para o gosto regras que não sejam empíricas mas que tampouco sejam legisladoras (cf. Lógica, p. 13). Pois a crítica do gosto
de um homem probo não deve ser uma doutrina com prescrições e cânones, nem poderia ser uma ciência a priori, Kant, nesse ponto, é bem o herdeiro do século XV III na medida em que recusa essa estética clássica.
[5] No domínio do "gosto" (como na teoria do conhecimento), as concepções psicológicas dos empiristas ingleses representam, portanto, um desafio para Kant: sem transformar dogmaticamente a crítica em doutrina, em ciência a priori, como garantir, apesar de tudo, a validade universal dos julgamentos estéticos refletidos, do "gosto" civilizado?
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