© Jean Dubuffet - 1948 - 91 x 73 cm
" São obras surgidas no silêncio, na solidão e no segredo. " (Lucienne Peiry)
"A arte não dorme nos leitos preparados para ela, foge logo que se pronuncia seu nome, ama o desconhecido. Os seus melhores momentos são quando esquece como se chama". (Jean Dubuffet)
É uma forma de expressão de pessoas que por uma razão qualquer escaparam do condicionamento cultural e do conformismo social. Ignorantes da tradição, indiferentes às críticas, únicos destinatários das próprias obras, os criadores de Arte Bruta agem por instinto. (fonte: http://www.swissinfo.ch)
A expressão arte bruta ou art brut foi concebida por Dubuffet, em 1945, para designar a arte produzida por criadores livres de qualquer influência de estilos oficiais, incluindo as diversas vanguardas, ou das imposições do mercado de arte.
Dubuffet via nesses criadores - oriundos de fora do meio artístico, a exemplo dos internos em hospitais psiquiátricos - a forma pura e inicial de arte. O suíço Adolf Wölfli (1864-1930), que viveu em um asilo de alienados desde 1895 até sua morte, é apontado por Dubuffet como autor símbolo da arte bruta.
Em 1948 é fundada por Dubuffet a Companhia de Arte Bruta, com o objetivo de constituir uma coleção dessas obras. Em 1967 acontece exposição importante no Musée des Arts décoratifs de Paris, apresentando uma seleção de 700 obras. (fonte: Wikipédia)
O amor da plenitude
(texto de Doris Lucini)
Entrando no castelo de Beaulieu, sede da Coleção da Arte Bruta de Lausanne, a gente é por assim dizer assediada pelas cores e pela exuberância das formas. Mas não é o aspecto estético que impressiona primeiro. A gente se sente atraída pela obras expostas sem saber muito bem por que, mas depois toma consciência de que falam uma espécie de linguagem primordial, acessível a todos. Podem até desagradar, mas conseguem entrar em contato com quem as olha.
Falam. Despejam sobre os visitantes sinais, letras, linhas, cores. Espaços brancos? Praticamente não existem. "É preciso ter em conta que para quem faz Arte Bruta – freqüentemente pessoas reclusas em institutos – encontrar papel já um problema", lembra Lucienne Peiry, diretora da Coleção. "O material recuperado – papel de embalagem, papel de jornal, papel higiênico – é extremamente precioso e o artista procura desfrutá-lo no máximo.
A imperiosa necessidade de exprimir-se enobrece tudo, seja qual for o tipo de suporte: os guarda-chuvas pintados por Giovan Battista Podestà (1895-1976), os cacos de louça de um restaurante com os quais Angelo Meani (1906-1977) cria cabeças, os fios do lençol de sua cama do qual Marguerite Sirvins (1890-1957) "confeciona" seu vestido ideal de esposa...
E ainda os suportes de velhos papéis, usados e re-usados em todos os sentidos. "Nesses casos, os psiquiatras falam de "horror do vácuo", mas prefiro falar de "amor pleno", afirma Lucienne Peiry. "Sim, trata-se de um amor da plenitude, porque no fundo uma folha de papel é um convite, uma incitação à criação artística".
O impulso da criação artística para os autores expostos em Lausanne foi totalmente interior. Não lhes interessava que outros vissem o que faziam. Com freqüência foi póstuma a descoberta de suas obras que estavam escondidas nos armários, debaixo da cama, dentro de malas: um tesouro secreto e íntimo.
Pode parecer paradoxal a exposição dessas obras num museu porque não foram pensadas para um público. "Mas, rebate Lucienne Peiry, nem Anna Frank pensava publicar seu diário, como Kafka não imaginava que um dia suas cartas fossem publicadas".
Acontece que essas obras, apesar das intenções de seus autores, falam ao mundo e estão expostas com cuidado, acompanhadas de uma nota biográfica. Estórias de solidão e marginalização, de hospitais psiquiátricos e de violência, como a de Adolf Wölfli (1864-1930), apontado por Dubuffet como autor símbolo da Arte Bruta.
Nascido em Berna, Wölfli perde a mãe muito cedo, vendo-se obrigado a viver com um pai alcoólatra. Uma adolescência caracterizada por pequenas malandragens, amores recusados e "atentados ao pudor" de algumas garotas. Inicialmente preso, Wölfli será internado com menos de 30 anos no hospital psiquiátrico de Waldau, em Berna, onde ficará até morrer.
É no quadro psiquiátrico e na solidão de uma solitária que têm origem metros de manuscritos, desenhos em que se cruzam elementos pitorescos, partituras musicais e palavras. "Essas pessoas não tiveram o direito de falar, tiveram que agarrar-se a esse direito e o fizeram com uma liberdade incrível, porque ignoram as regras artísticas e, então, inventam tudo. É justo abrir as portas e torná-las conhecidas".
Torná-las conhecidas significa, segundo Lucienne Peiry, tomar consciência de que "todas as obras reunidas nesse museu foram criadas em condições particulares: na solidão, na base do segredo, no silêncio, noções essenciais para começar a compreender a arte bruta". (fonte: http://www.swissinfo.ch)
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