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Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. I. A Imitação. O Belo e a Criação


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Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.

III. O BELO E A CRIAÇÃO ARTÍSTICA

[1] Platão não ignora, portanto, o que denominamos as belas-artes, e nele se encontra, inclusive, uma análise dos efeitos psicológicos e fisiológicos da arte, assim como uma descrição do entusiasmo poético que as "estéticas" setecentistas (por exemplo, a de Diderot) reencontrarão. Mas Platão define essas artes não pela Beleza mas pela mimêsis , ou seja, por uma inferioridade ontológica, pelo distanciamento das verdadeiras realidades, das Idéias, às quais a Beleza, por um movimento inverso, deve reconduzir.

[2] O enfoque platônico (didaticamente explicado no Hípias) consiste em reunir a multiplicidade de belas coisas na unidade da essência do belo, do que, pela sua presença, faz parecer bela cada uma das coisas em que ele está presente (294 a).

[3] Platão reconhece, em primeiro lugar, a existência de coisas que são belas por si mesmas, porque fornecem um prazer sem mistura (Filebo, 51 a), ou seja, um prazer puro que não nasce da cessação de uma dor ou aflição. As cores e as formas geométricas, tal como os sons e os perfumes, são belos nesse sentido, por um acordo em que o sofista Hípias acredita, por um instante, encontrar a essência da beleza (Hípias, 298 b). De fato, encontramo-nos aqui no limiar da estética moderna, a qual fundamenta a beleza na experiência de um prazer. Melhor ainda, Sócrates constata que o belo é uma concordância que resulta essencialmente do ouvido e da vista. Portanto, acaba formulando uma pergunta em que está como que esboça da a estética kantiana: por que, com efeito, "separar do agradável esse outro agradável que, segundo vós, possui a qualidade de ser belo, ao passo que, a propósito das outras sensações, aquelas que se relacionam com os alimentos, as bebidas, o amor, com tudo o que é ainda do mesmo gênero, não dizeis uma só palavra sobre a sua beleza?"(208 d, e). Mas Sócrates envereda por outro caminho, perguntando-se se o prazer que a vista e o ouvido propiciam é melhor e, portanto, se não existirá um prazer "útil" (303 e). O prazer puro seria belo porque pressupõe um corpo liberto da necessidade e convida a procurar uma outra realidade?

[4] A recusa em Platão de uma estética no sentido moderno é ainda mais nítida se acompanharmos a demonstração do Estrangeiro nas Leis, que se indaga se o prazer deve ser o critério que permite julgar as artes de imitação e, em particular, a música (668 a). O prazer que pode dar uma arte de imitação é uma arte relativa (e não 'um prazer absoluto, como o prazer sem mistura), porque nasce da semelhança (Leis, 667 d). Assim, não se deve julgar uma imitação tomando por único critério o prazer que ela dá. Esse prazer, o encantamento, está submetido demais à variabilidade de opiniões e gostos. Uma arte da imitação deve ser julgada em função da retidão de sua obra, ou seja, de sua verdade, de sua conformidade a um modelo que importa conhecer de antemão.

[5] O prazer estético nasce, portanto, do espetáculo da conformidade a um modelo que é belo pela justa proporção que há nele (pois que se trata da temperança).

[6] A beleza, num sentido mais intelectual e menos vinculado aos sentidos, pode residir, portanto, na justa proporção das partes e na harmonia do todo (harmonía designa a oitava em Pitágoras, cf. Fédon, 85 e). É pela salvaguarda da medida certa que as artes obtêm realizações boas e belas, diz o Político (284 b). "Por toda a parte, medida e proporção têm por resultado produzir a beleza e alguma excelência" (Filebo, 64 e).

[7] Mas essa obrigação recíproca das partes e essa harmonia do todo que constituem uma forma de beleza intrínseca, interna, assentam na conformidade a um fim. O casco de um navio pode ser absolutamente belo porque tem um desenho harmonioso, mas essa beleza é relativa na medida em que a curvatura do casco deve estar em perfeita conformidade com a sua função: oferecer o mínimo de resistência ao curso, etc... A essência da beleza seria assim o útil (Górgias, 474 d). Por conseguinte, a beleza já não é absoluta, como aquela que suscitava um prazer puro: a beleza é relativa a um bem com o qual o objeto belo concorda.

[8] Da beleza absoluta (imediata) do prazer puro dos sentidos, passamos à beleza que promana da apreensão intelectual da medida exata e da harmonia, depois a essa beleza relativa (como já é o caso das artes de imitação) cuja essência é a utilidade, ou seja, a faculdade de se conformar a outra coisa, que é um bem. 

[9] As coisas belas, portanto, só são belas porque conduzem, pouco a pouco, aquele que as ama a procurar a unidade delas, a buscar para além dos sentidos a essência que faz essas coisas serem belas. Ora, as coisas belas são belas porque, de um modo mais transparente do que as coisas que têm outras qualidades, elas conduzem a alma para além do corpo, para a verdade supra-sensível.

[10] Existe, pois, em Platão, uma arte do belo, mas essa arte é a dialética, a arte suprema segundo o Filebo, e não uma das belas-artes no sentido moderno (saber produzir bela coisas que dão prazer). A arte platônica do belo procura purificar o prazer e substituí-lo pela apreensão intelectual das essências. A Beleza, por outro lado, embora sensível, não é própria das obras de arte e conduz, de fato, à ascese. A arte de imitação, sob esse ponto de vista, é sobretudo um obstáculo à busca da Beleza, dado que convida, primordialmente, a permanecer no mundo sensível que ela reproduz. 

[11] A dialética do Banquete esboça, portanto, uma descrição da criação artística que os neoplatônicos prolongarão e se reencontrará em Proust. 


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