Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.
II. A SEDUÇÃO DA ARTE
[1] Platão reúne o pintor. o poeta e o sofista numa mesma definição do trompe-Ióeil, da aparência enganadora e dúplice. Todos eles são ilusionistas cuja pretensa competência universal é um fantasma tão irreal quanto o reflexo sobre o metal polido do espelho. Mas esse espelho que é a arte mimética não deixa de fascinar e sua magia não é uma metáfora. Esse ser menor que é a ilusão exerce, paradoxalmente, um fascínio que a filosofia deve dissipar de maneira assídua, incansável. A arte faz esquecer as verdadeiras realidades (para as quais a Beleeza reconduzirá). A Palavra grega para designar as cores do pintor (phármakon) não evoca igualmente o filtro do feiticeiro?
[2] "A estética nada mais é do que uma fsiologia palicada": esta fórrnula de Nietzsche em Nietzsche contra Wagner já esclarece as relações entre Platão e a arte. Mas a Beleza tem em Platão o efeito inverso: ela desvia da sensibilidade e do corpo.
[3] Na cidade ideal que o Estrangeiro funda tão cuidadosamente nas Leis, a música (acompanhada necessariamente de cantos e danças) desempenha um papel essencial na educação moral dos jovens cidadãos (II, 654 b). A arte exerce sobre o corpo e as paixões uma influência que o legislador deve regulamentar e utilizar à maneira dos regimes que a medicina hipocrática recomendava que se seguissem para gozar de boa saúde (Leis, 797 d, e). Assim, "0 motivo pelo qual a cultura musical é de uma excelência soberana" é que "nada mergulha mais profundamente no âmago da alma do que o ritmo e a harmonia" (Rep., 401 d).
[4] Sócrates, que é o único a conservar a cabeça desanuviada e a mente lúcida quando do banquete com Aleibíades e Aristófanes, apresenta-se desde logo como aquele que resiste às seduções irracionais da arte e devolve à música sua função apolínea de educação das paixões. A dialética e a ironia têm, primeiro, a função negativa de uma purgação, de uma catarse.
[5] Os poetas não sabem literalmente o que dizem, assim como os pintores não conhecem o que pintam. Mas o artista inspirado pelas Musas pode também ser como que um adivinho que chega a uma intuição e supera a razão discursiva: Sócrates o diz no final do Mênon, talvez com uma ponta de ironia, mas o Estrangeiro das Leis é muito claro: "É que a raça poética, que é divina, possuída de um Deus quando canta seus hinos, atinge em todas as ocasiões, com o concurso de algumas das Graças e de certas Musas, os fatos que se produzem na ordem da realidade" (682 a).
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