DESARTE. Linguagens Visuais! Arte Blog.

flickr facebook twitter tumblr feed

Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. I. A Imitação. Mimese


Compartilhe Arte! Divulgue!

Fichamento do livro "Filosofia da Arte", Autor: Jean Lacoste, Editora:Jorge Zahar Editor.

I. A MIMESE

[1] A poesia, com efeito, é definida pela mimese, a imitação, que não se deve confundir rapidamentedemais com uma concepção naturalista e realista da arte (Infra, p. 87). A definição da arte como mimese liga-se, de maneira mais profunda, à concepção grega do ser e da verdade. 

[2] Quando, de uma coisa que está diante de nós, dizemos, por exemplo, "é uma árvore" (mesmo que esta seja apenas desenhada), estamos dizendo o que essa coisa é, reconhecemos-lhe uma identidade e um ser. Esse ser é o que Platão designa por "essência", "forma" ou Idéia. A Idéia é o que, por sua presença faz uma coisa ser o que é (uma árvore). O ser, definido como, Idéia, é permanente e opõe-se, por conseguinte, à mudança e ao devir. Ora, os objetos fabricados (tà skeúê), os "utensílios" (uma cama, por exemplo), também possuem uma forma permanente que nos faz reconhecê-los quando os vemos. O "utensílio", o qual deve ser utilizado pela comunidade dos homens (o "povo", o dêmos), é fabricado por um artesão, um operário do povo (dêmiourgós). Este fabrica a cama com os olhos fixos na Idéia de cama, no que deve ser uma cama para ser uma cama. O artesão não produz a própria Idéia e, antes de fazer praticamente o móvel, o artesão deve considerar a Idéia à qual seu trabalho está subordinado. Nesse sentido, o artesão é um bom imitador, na medida em que torna presente nos sentidos uma Idéia limitada.
Mas imaginemos, com Sócrates, um homem capaz de produzir tudo (pánta poieîn) de produzir aquilo que cada artesão produz separadamente e até de produzir o que nasce da Terra, todos os animais, o céu e a terra, e mesmo os deuses. Um homem poderoso e admirável, sem dúvida. E, no entanto, esse artesão universal existe, produz todas essas coisas, mas de uma certa maneira. Com efeito, é suficiente, para tudo "produzir", e muito rapidamente, pegar num espelho e passeá-lo (596 d). E o pintor será comparado a esse homem com o espelho. O espelho "produz" na acepção grega (poieîn), torna presente uma coisa, depois outra, tal como são, já que são reconhecíveis. Vemos aqui que poieîn não significa fabricar. 

Contudo, o espelho (e o quadro) não produz as coisas em sua verdade (tà ónta têi elêtheiai), mas as coisas "em sua aparência" (ónta phainómena). É verdade que o próprio artesão não produz a Idéia da cama. Ora, somente a Idéia da cama é coisa real. O artesão que faz uma cama não produz, portanto, a realidade desse "utensílio", mas um análogo. O artesão tampouco chega à cama verdadeira, isto é, à cama que é sempre uma cama. Ao fazer aparecer a Idéia, que é a verdadeira cama, na madeira, ele obscurece, na verdade, o brilho original da Idéia. Se a pintura, por conseguinte, é uma arte cuja essência é a mimese, isso não significa que a pintura reproduz, de um modo mais ou menos "realista", uma realidade que seria a dos objetos concretos da existência cotidiana. A pintura é uma certa maneira de produzir por imitação da Idéia, como a fabricação artesanal. Portanto, cumpre distinguir a mimese, que é própria da imitação pictórica, da imitação artesanal.

[3]Os ignorantes contentam-se em ver uma multidão de camas concretas. Mas o filósofo, pelas considerações de uma cama única, descobre três camas diferentes: a cama "natural" (597 b), a cama em verdade, a Idéia de cama,depois a cama individual que o artesão fabrica e, finalmente, a cama pintadapelo pintor (zôgráphos)...Para explicar esse modo de ser em verdade, Platão recorre à idéia misteriosa de um Deus "operário natureal da essência da cama, da cama única. Os artesãos encarnam essa Idéia nas múltiplas camas fabricadas, e o pintor imita, por sua vez, a obra dos artesãos... A mimese pictórica não é, portanto, apenas imitação. O pintor que não produz utensílios para o uso comum dos homens está mais distanciado da cama, em sua verdade, do que o artesão. A mimese é uma produção subordinada que se define pela distância, pelo distanciamento em relação ao ser, à Idéia de cama, à forma não desfigurada.
Com efeito, a diferença entre o artesão e o pintor é capital para o nosso propósito: o artesão fabrica uma cama que tem a unidade, a identidade de uma coisa(598 a). O pintor, ern contrapartida, apenas pinta, apenas "reproduz" um aspecto da cama, de frente ou de lado, etc. Portanto, o pintor imita o real, não como este é, mas como aparenta ser. Ele pinta um phántasma (598 b), A. pintura define-se, pois, por seu distanciamento do real e do verdadeiro, produz um simulacro, um ídolo (eídôlon).
 
[4] O que é verdade para a pintura é também verdade para a poesia..."Todos os praticantes da poesia são 'imitadores' que produzem simulacro de virtude" (600 e).

[5] É verdade, portanto, que a tékhnê, em Platão, não designa a arte na acepção moderna do termo, nem mesmo uma técnica. A arte (se conservarmos essa tradução tradicional) designa um saber, um savoir-faire refletido e fundado no raciocínio que se opõe à rotina (tribê) (Górgias, 463 b; Fedro, 260 e), e o Filebo distingue as artes da medida e do número (a arquitetura) e as artes que repousam na experiência, na intuição e na conjetura (56 a): a música, a medicina, a agricultura, etc. Mas o texto da República permite definir aquilo, a que os modernos chamam as belas-artes: sua essência é a mimese. A essas artes, Platão critica-Ihes o fato de serem, simultaneamente, móveis demais e imóveis demais, de produzirem a aparência do todo, mas de fazê-lo fixando-se numa só perspectiva, num único ponto de vista.

Vários textos do Sofista  permitem precisar a natureza dessa mimese: esse diálogo divide, com efeito, as artes (265-266) em artes de aquisição (a caça, etc.) e em artes de produção. Por sua vez, estas últimas são divididas em produção de coisas reais e em produção de simulacros (eídôla)...O quadro é aqui concebido como o simulacro de um objeto fabricado pelo homem (Platão ignora a paisagem). 

[6] O artista pode, de fato, realizar um ícone, uma reprodução que obedeça às proporções (em grego: à "simetria") do modelo, às suas dimensões reais (Leis, 668 e). O artista cria assim uma obra verdadeira que respeita, por exemplo, o cânone das proporções do corpo humano fixadas por Policleto. Mas o artista também pode, renunciando a essa verdade objetiva, procurar uma semelhança puramente aparente, o phántasma que produzirá a ilusão: é a arte "fantástica". Por exemplo, o escultor pode de formar as proporções de um grupo destinado a ser visto de longe: ele leva em conta o ponto de vista do espectador.

[7] Platão condena o ilusionismo da arte revolucionária de suá época, na qual ele vê uma concepção estritamente hurnanista, relativista próxima dos sofistas. E, por uma inversão muito evidente, na Florença do Quattrocento, Alberti justificará a construção do "quadrado de base" na perspectiva artificialis mediante um relativismo inspirado em Protágoras, que faz do homem a medida de todas as coisas.

[8]  Platão designa, por diversas vezes como skiagraphfa, a arte do trompe-l'oeil, da aparência enganadora capaz de dar ao espectador a ilusão de profundidade, seja pela perspectiva linear, seja pelo modelado de sombra e luz, seja ainda pelo jogo das cores. A invenção da perspectiva linear propriamente dita é atribuida a um certo Agatarco (cerca de 460 a.c), que, segundo Vitrúvio (Da Arquitetura, VII, Prefácio), teria pintado para Ésquilo cenários de tragédias mostrando a fachada e as paredes laterais de edifícios. Demócrito e Anaxágoras teriam então definido as regras dessa técnica nascente da cenografia, a qual, por diferente que seja da costruzione legittima codificada pelos florentinos do século XV, nem por isso deixa de ser um primeiro modo de interrogar, por meio da arte, aquilo a que Merleau-Ponty chamará a profundidade do Ser. (Sobre o problema da perspectiva na  Antigüidade, ver E. Panofsky, La perspective comme forme symbolique, e J. White,  The Birth and Rebirth of Pictorial Space.)

[9] Com efeito, o trompe-I'oeil deve-ser visto de uma certa distância (Teeteto, 208 e) e de um certo ponto de vista. Se se estiver perto demais, a irnpressão desaparece e a ilusão dissipa-se na confusão, como os falsos prazeres (República, 586 b, c). Platão condena, portanto, essa arte moderna cuja essência é a mimese, porque gera o sentimento do real mas segundo um único ponto de vista ao passo que a contemplação das Idéias, das verdadeiras realidades, evoca o movimento de um homem que admira estátuas. Uma vez que, por definição, a imitação não pode ser perfeita, porquanto a perfeição destruiria a imagem e redundaria na identidade (Crátilo, 432 b), a imitação bem-sucedida do trompe-l'oeil é, pois, simultaneamente verdadeira e falsa; ela é e não é (Sofista, 240b, c): consiste num perturbador entrelaçamento.de ser e de não ser, um mê ón. 


Publicidade

Publicidade

 

contact Contato

You are here pesquisas glossário Filosofia da Arte. Jean Lacoste. Cap. I. A Imitação. Mimese