
Castiglione, Giovanni Benedetto, 1655, monotipia
Embora não seja propriamente uma técnica de gravura, uma vez que seus resultados não podem ser repetidos. Trata-se de fazer desenhos a tinta de impressão sobre uma superfície lisa, como metal ou vidro, e transferir o resultado para o papel. Os expressionistas, Picasso e alguns contemporâneos utilizaram a técnica. (texto Dennis Hanson)
Denomina-se monotipia uma placa sobre a qual uma imagem é executada com a tinta adequada. Esta imagem é impressa, tornando-se a cópia única, sendoimpossível ser obtido novamente um exemplar igual. Desta maneira, a monotipia situa-se entre as áreas gráficas e o desenho (ou a pintura).A monotipia, portanto, constitui-se de um processo híbrido, entre a pintura,o desenho e a gravura. Aproxima-se do gesto da pintura, da mancha de tinta, oudo traço, da linha; ao mesmo tempo possui características próprias da gravura, como a inversão da imagem. Apesar de o próprio nome esclarecer, mono (único) etipia (impressão), ou seja, que se obtém de uma prova única, em alguns casos há a possibilidade de se conseguir mais de uma cópia, evidentemente cada vez mais tênue, mais clara, permanecendo apenas um "fantasma" / vestígio da imagem.
Historicamente, a monotipia teve origem no século 17, com Giovanni Benedetto Castiglione (1616-1670), do qual foram preservadas algumas monotipias. Alguns artistas chegaram a utilizar monotipias em seus trabalhos,esporadicamente ou com maior freqüência, como foi o caso de Edgar Degas, que produziu uma série significativa de monotipias.
Na gravura contemporânea,percebemos um novo impulso da monotipia, técnica simples, direta, poderia dizer até rudimentar, comparada aos avanços tecnológicos de outros recursos. Esta impressão ou registro remete a gestos primordiais do homem, marcas que atravessaram os tempos, tornando-se tão atualizados, tão contemporâneos quanto a mão do homem pré-histórico gravada na caverna. Talvez seja este aspecto que atraia alguns artistas em relação à monotipia: gravar,"congelar" um gesto, uma idéia, uma emoção. De maneira rápida, fugaz, um instante transformado em mancha, linha, matéria. Em relação às variações de monotipias, poder-se-ia dizer que um tipo se aproxima do traço, do desenho. A característica desta linha, ao observarmos suas qualidades físicas, constitui-se de linhas "aveludadas", linhas constituídas de infinitos pequenos pontos. Esta monotipia requer pouca tinta tipográfica, espalhada de maneira uniforme, com um rolo de impressão tipográfico sobre uma placa de vidro, acrílico, fórmica ou chapa metálica. A tinta tipográfica é espalhada uniformemente sobre a placa de vidro ou acrílico, utilizando-se para tal o rolo de impressão tipográfica. A folha de papel é colocada sobre a área entintada e,cuidando-se para não apoiar mãos e dedos sobre o papel, as linhas são traçadas, utilizando-se, para tal, uma ponta qualquer como o lápis, a caneta, uma ponta demadeira, o dedo, etc...
A folha é, em seguida erguida, surgindo, no verso do papel, a linha traçada, impressa com a camada fina de tinta. Percebe-se que, neste tipo de desenho, a mão deve ser conduzida com firmeza ou leveza, porém como a mão não pode ficar apoiada sobre a superfície do papel, tal gesto exige uma destreza da mão, um fluir de traços. Observando-se a qualidade física da linha monotípica, vê-se uma linha "pontilhada", o que caracteriza o traço típico da monotipia. Repetindo-se este procedimento várias vezes, a superfície da tinta tipográfica torna-se mais fina, possibilitando uma linha mais nítida, sem manchas e marcas paralelas. Estas manchas, marcas de dedos, etc podem ser observadas como vestígios da tinta na folha de papel; poderão até ser incorporadas eventualmente à produção das monotipias; porém, quando se tornam excessivas, atrapalham a visualidade da imagem. Finalizada uma monotipia, e antes de iniciar-se outra, deve-se passar novamente o rolo de impressão, para apagar os vestígios da imagem anterior. Repetindo-se, assim, a operação, aos poucos, a superfície entintada ficará mais escassa, acrescentando-se mais tinta caso seja necessário. Um outro tipo de monotipia aproxima-se mais da pintura, da mancha de cor, do gesto. Neste caso, a pintura será realizada com pincéis (ou outrosrecursos como retalhos de tecidos, pintura feita com dedos, etc...), sobre uma placa de vidro acrílico ou placa metálica. Há também outros materiais possíveis de serem utilizados como suportes: placas de off set, chapas de raio X, fórmica, acetatos, azulejos, etc.
Esta placa será coberta com a folha de papel e poderá ser impressa manualmente ou prensada. As tintas podem ser variadas; desde tinta a óleo, de secagem mais lenta, até tintas acrílicas, tintas suvinil, de esmalte, ou de secagem rápida. A escolha da tinta e de sua qualidade de secagem, seja fluidez ou mais compacta, também depende da intenção do projeto. Esta pintura sobre a placa poderá ser impressa novamente, sendo que a segunda ou a terceira impressão ficarão mais claras, a imagem torna-se gradativamente enfraquecida, assim como ocorre com um carimbo que se utiliza várias vezes, sem entintá-lo novamente. Algumas vezes, dependendo do tipo de tinta, torna-se possível imprimir pequenas seqüências de imagens, do preto ao branco. A questão do tempo interage com a monotipia. Na impressão, por exemplo, capta-se um traço, uma marca, um gesto impresso, enquanto a tinta ainda está molhada. Este momento é decisivo e único, talvez um dos fatores que mais atraem nas monotipias. A rapidez das impressões, segundo características da técnica, agiliza o processo da produção das monotipias, entretanto, é também seu perigo.
Efeitos rápidos, borrões e manchas que escorrem, podem produzir efeitos superficiais, repetitivos; "fragilidades" de um acaso superficial. Talvez seja este um dos motivos pelos quais a monotipia, muitas vezes, ganha uma aparência casual, de mero efeito: posso produzir várias impressões em pouco tempo. E então, como fazer para que todas estas qualidades sejam valorizadas? O que fazer para que o processo monotípico ganhe força de expressão, indo além de mero efeito produzido? Como valorizar os efeitos, as manchas, as linhas aveludadas e o aspecto "impreciso" desta técnica? Estas são perguntas que acompanham o ensino da gravura e também são pertinentes ao "fazer" artístico.
Com relação à questão temporal, inerente à técnica, há pesquisas de alguns artistas que utilizam processos de corrosão de materiais metálicos; por exemplo, substituindo a tinta pela oxidação dos materiais. Neste caso, o tempo opera como agente determinante. Vestígios impressos, "acasos" incorporados; a monotipia vê-se entrelaçada com o tempo. Este aspecto é interessante e instigante: tornar visível, imprimindo o tempo e os gestos.
(texto de Luise Weiss - Professora de Gravura do Departamento de Artes Plásticas da Unicamp e artista plástica)
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