DESARTE. Linguagens Visuais! Arte Blog.

flickr facebook twitter tumblr feed

Xilogravura


Compartilhe Arte! Divulgue!

A xilogravura merece um local de honra na história da gravura por ser a mais antiga, a mais direta, e, em virtude da sua extrema simplicidade, é facilmente a forma mais democrática de um meio artístico que permite grande multiplicação de cópias. A madeira possui texturas que indicam sua idade e seu caráter, podem ser macias ou duras, com veios ou lisas. Os vegetais nutrem-se da terra, sol, água e ar, o que faz da madeira uma matéria viva e receptiva. Se a árvore for cortada no sentido do crescimento teremos a xilogravura de fio. O corte pode ser transversal ao tronco e teremos então a gravura de topo ou xilografia.

Inventada no Oriente, mais provavelmente na China, foi muito difundida por toda a região antes de chegar à Europa, no fim da Idade Média. 

Consiste no desbaste de placas de madeira por meio de ferramentas afiadas, a fim de retirar as partes que não se deseja imprimir. O que sobra em relevo na prancha de madeira é entintado e a imagem é transferida para o papel. Por influência dos impressionistas, os primeiros ocidentais a valorizar a xilogravura japonesa, o papel artesanal feito no Japão com fibras da casca de arroz tornou-se o suporte mais utilizado na xilogravura desde então.

Abertura-do-Quinto-e-Sexto-Selos

Albrecht Dürer, 1511, Abertura do Quinto e Sexto Selo

Durante séculos o Japão produziu xilogravuras de extrema beleza que permaneceram desconhecidas do Ocidente até a I Guerra Mundial. As gravuras que chegaram à Europa no século XIX são chamadas de "imagens do mundo flutuante" – Ukiyo-e. Sua origem pode ser traçada a partir do século XVI. A escola de gravura surgiu como uma decorrência do final dos patronos da corte e dos mosteiros do antigo Japão esvaziados pelo declínio religioso do Budismo e, também, pela mudança da antiga Edo para Kioto, transformada em capital do império. A escola Ukiyo-e englobava gravadores, desenhistas, impressores e editores que, num trabalho conjunto, publicavam gravuras com temas poéticos, eróticos, dramáticos, épicos e históricos. As gravuras eram adquiridas por apenas alguns centavos e serviam para decorar o interior das residências mais modestas. Por seu custo baixo tornaram-se um produto de massa com grandes tiragens. Grandes mestres do desenho dedicaram-se à criação de imagens como um meio de gerar uma crônica do cotidiano da agitada e efervescente Edo.  

the-great-wave-of-kanagawa-1831

Katsushika Hokusai, 1831, A grande Onda de Kanagawa

No período que vai de 1520 a 1580, aproximadamente, o interesse pela xilogravura começou a entrar em declínio, no entanto, alguns pintores ainda se dedicavam ao ofício de xilógrafos seguindo a influência marcante de Albrecht Dürer. Pouco a pouco, a gravura em metal começa a assumir um papel cada vez mais proeminente deixando pouco espaço para a xilo como arte autônoma, obrigando-a a tornar-se um meio puramente reprodutivo a serviço de grandes artesãos, os quais eram capazes de reproduzir com exatidão absoluta a técnica do bico de pena. As xilogravuras passam a imitar a pintura, o desenho e a aquarela além de interpretarem murais e esculturas. 

Como meio de reprodução de outras obras a xilogravura torna-se maneirista. Os temas favoritos eram as cópias dos mestres venezianos – Veronese, Tintoreto, Ticiano, entre outros. Neste ponto a pesquisa da gravação em metal avançava.

 rubens-o-jardim-do-amor-xilogravura

Cópia da pintura de Peter Paul Ruens, O Jardim do Amor

Com a gravação das suas obras na técnica do chiaroscuro, Rubens conseguiu obter lucros sobre a venda das reproduções de seus murais e pinturas. A partir de 1619 contratou vários gravadores e, trabalhando com Christoffel Jegher (1596-1652), seu mais importante colaborador, suas gravuras obtiveram tanto sucesso que algumas delas foram impressas com tiragens de 2000 cópias.

O período da xilogravura como reprodução de outras obras se encerra com Gauguin. Artista solitário e auto-exilado na Polinésia criou poderosas imagens cheias de inocência pagã. Seu álbum de xilogravuras Nave Nave Fenua (Terra maravilhosa) são interpretações poéticas de um mundo natural prestes a desaparecer.

noa-noa-suite-delightful-land

Paul Gauguin , 1893,  Noa Noa Suite: Delightful Land

Munch, admirador de Gauguin, voltou-se com interesse para a xilogravura. Trabalhando sozinho, elevou o processo de impressão manual a uma forma de arte. A seleção da madeira e a exploração visual dos seus veios faziam parte do seu processo criativo. Fazendo inúmeras provas em diferentes cores, Munch realizou um trabalho raro para a época e, mais do que qualquer outro artista do seu tempo conseguiu retirar a xilogravura das suas restrições técnicas resgatando esta antiga forma de expressão artística.

kiss-iv-1902

Edvard Munch, 1902, 47x47cm, Beijo IV

A gravura em madeira sempre carregou uma dupla responsabilidade, o seu papel político e ao mesmo tempo estético. A partir da Revolução Francesa cada vez um número maior de panfletos e jornais circulava pelas praças, esquinas e cafés difundindo as palavras de ordem: "cidadão", "nação", "contrato social", "vontade geral", "direito do homem". Em todas as publicações européias surgiam os cartunistas políticos que usavam tanto a xilogravura de fio, assim como a de topo ou xilografia. Em Paris surgiu o Charivari, em Londres o Punch, em Berlim, o Kikeri, e em Munique o Simplizissimus que foi perseguido por Hitler.

grv 027d g

Logotipo do jornal político - Simplicissimus - Xilografia

Não podemos deixar de notar o papel da xilogravura em alguns grupos de vanguarda na arte do ínicio do século XX. 

Em Dresden, um grupo de artistas essencialmente dedicados à xilogravura, fundou o Die Brücke (A ponte). Liderados por Erich Heckel (1883-1970) e Karl Schmidt Rottluff (1884-1976), o grupo permaneceu ativo por oito anos. A dedicação à xilogravura cujo estilo arrojado e vigoroso sobreviveu à perseguição de Hitler, pertence ao que se chama usualmente de Expressionismo. A dedicação dos artistas do grupo A Ponte ajudou a reviver a linguagem da arte na madeira.

 Heckel PortraitofaMan

Erich Heckel, 1919, Portrait of a Man 

Nascido em Moscou, Wassily Kandisnky foi o responsável pela criação do Der Blaue Reiter (Cavaleiro Azul) em 1919, grupo articulado por ele e por Franz Marc (1880-1916) que morreu na I Guerra Mundial. Os dois artistas exerceram uma forte influência em sua época e deixaram um legado às gerações futuras através da pedagogia que aplicaram na Bauhaus de Dessau. Novamente a xilogravura jogou uma parte importante nos dias iniciais do grupo.

the-singer-1903

Wassily Kandisnky, 1903, A Cantora, 19,5x14,5cm

 Destacamos alguns artistas que ficaram famosos por suas xilogravuras no Brasil, como Oswaldo Goeldi, Lívio Abramo, Rubem Grilo, Gilvan Samico e Lasar Segall, entre vários outros. As gravuras de cordel do nordeste são xilogravuras.

 A técnica ancestral da xilogravura foi escolhida por Oswaldo Goeldi como seu principal meio de expressão. O século XX compreendeu que a xilogravura possui expressão própria, e essa expressão transmite e pode corresponder a um conteúdo determinado, agreste, dramático e pessoal.

pescador-perdido-1955

Oswaldo Goeldi, 1955, Pescador Perdido

Segall pertenceu ao grupo expressionista de Dresden, A ponte (Die Brücke). Deixou a Alemanha durante a II Guerra Mundial e passou a viver em São Paulo. Naturalizou-se brasileiro, tornou-se um dos grandes mestres do Modernismo. Suas xilogravuras muitas vezes falam do cotidiano carioca, das mulheres do Mangue, dos negros e das favelas.

Segall-Emigrantes-com-lua1926-xilogravura245x18cm1

Segall, Emigrantes com lua, 1926, xilogravura, 24,5x18cm

Em 1909, Lívio Abramo começa a estudar desenho com Enrico Vio (1874-1960). Com incentivo do professor segue a carreira artística, fazendo ilustrações para pequenos jornais na década de 1920. Autodidata em gravura realiza suas obras trabalhando de forma rudimentar, em pedaços de madeira encontrados ao acaso. Em 1928 e 1929, faz gravuras em linóleo para o jornal Lo Spaghetto, em que retrata a vida operária em formas bastante simplificadas. No fim da década de 30 entra em contato com as gravuras de Oswaldo Goeldi (1895-1961) e visita mostras de expressionistas alemães, que o afetam pela força e expressividade de sua arte. As xilogravuras de Lívio Abramo expõem as preocupações sociais e políticas do artista.

 livio-abramo

Lívio Abramo, Operário, 1935

Gilvan Samico é pernambucano. Seu trabalho de gravador e pintor mescla a expressão fantástica do norte do Brasil aos temas bíblicos. Sua arte extremamente requintada e simbólica é permeada por relações nordestinas como os cancioneiros populares, os xilogravadores de cordel em associações eruditas a temas religiosos. Sua xilogravura é minuciosamente composta por várias matrizes em cores localizadas de modo restrito e preciso.

gilvan-samico

Gilvan Samico, A criação: Adão e Eva

Rubem Grilo é agronomo e xilógrafo. Em 1963 muda-se para o Rio de Janeiro onde freqüenta por um curto período o curso de xilogravura, com José Altino, na Escolinha de Arte do Brasil. No ateliê de xilogravura da Escola de Belas Artes é orientado por Adir Botelho. Com Iberê Camargo aprende as técnicas de gravura em metal. Participa do curso de litografia com Antônio Grosso, na EAV/Parque Lage. A partir de 1973, ilustra os jornais Opinião, Movimento, Jornal do Brasil e Pasquim, entre outros. No início dos anos 80 trabalha para a Folha de S.Paulo e ilustra os fascículos da coleção Retratos do Brasil.

rubem-grilo-xilogravura-1998 bad-boy 23x31-cm

Rubem Grilo, 1998, bad-boy 23x31-cm

Não com menos importância de representatividade na arte nacional podemos citar vários outros grandes artistas que fizeram uso da xilogravura, tais como, Fayga Ostrower, Carlos Scliar, Adir Botelho, Newton Cavalcanti, Maria Bonomi, Roberto Magalhães, Anna Carolina Albernaz, Eduardo Eloy, Luise Weiss, Marcos Varela, entre outros. sem contar com os mestres do cordel, como Mestre Noza, J. Borges, Minelvino, Stenio Diniz, Walderêdo, entre tantos outros, anônimos que fazem da xilogravura uma das técnicas mais populares de manifestação artística. 

Veja o vídeo abaixo e faça a sua xilo também:

As principais características que tornam a xilogravura mais facilmente identificáveis são o próprio papel de arroz, somado aos veios característicos da madeira, que acabam sendo impressos juntamente com o desenho. Alguns artistas contemporâneos, entre eles o brasileiro José Lima, inovaram na xilogravura, usando eucatex como suporte, fazendo relevos secos no papel com áreas vazadas na matriz e fazendo incisões a buril, entintando a matriz e imprimindo as cópias em prensas como na gravura em metal e em papel de linho ou algodão. O resultado, embora um pouco diferente, ainda pode ser classificado como xilogravura.

por xilo int 01

(via: www.centrovirtualgoeldi.com)

 


Publicidade

Publicidade

 

contact Contato

You are here pesquisas glossário Xilogravura