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Construtivismo Russo


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Vladimir Tatlin, Monument to the Third International, 1919

Nasce na Rússia em 1914, o movimento estético-político mais influente na arte, arquitetura e design do século XX. O termo é empregado até os dias de hoje, devido a sua tendência universal permanente. Propõe uma arte abstrata, geométrica e autônoma, seguindo uma estética anti-naturalista, de ordem matemática, criando uma conexão entre arte e tecnologia. Valoriza a construção da obra em oposição à composição. Tornada objeto, a obra é materializada no espaço em busca da utilidade, da técnica, da engenharia e de novos materiais.

A nova sociedade devia se posicionar diante da arte que não podia mais ser vista como elemento especial da criação humana, e sim como instrumento objetivo para a construção da nova sociedade industrial, onde o artista deveria ocupar seu lugar ao lado do cientista e do engenheiro, servindo assim a objetivos sociais e a construção do mundo socialista. Optando por uma atividade coletiva em oposição ao humanismo individualista, buscavam superar os limites da arquitetura da escultura e da pintura, numa direção materialista revelando a expressividade inata dos materiais.

Em 1922, Pevsner e Gabo deixam a ex-URSS pressionados pelo regime soviético, e no ano seguinte o stalinismo retorna a estética realista figurativa, voltando a valorizar a velha academia. O auto-exílio deles vão contribuir para a disseminação dos ideais estéticos da vanguarda russa, impactando a Bauhaus na Alemanha, o De Stijl, nos Países Baixos e o grupo Abstraction-Création, na França. Gabo seria em 1937, um dos editores do manifesto construtivista inglês, Circle.

Fichamento do livro "Conceitos da Arte Moderna" NIKOS STANGOS. Editor: Jorge Zahar, pág.140 a 146. Escrito por Aaron Scharf:

1. O construtivismo não pretendia ser um estilo abstrato em arte nem mesmo uma arte per se. Em seu âmago, era acima de tudo a expressão de uma convicção profundamente motivada de que o artista podia contribuir para suprir as necessidades físicas e intelectuais da sociedade como um todo, rela-cionando-se diretamente com a produção de máquinas, com a engenharia arquitetônica e com os meios gráficos e fotográficos de comunicação. Satisfa­zer as necessidades materiais, expressar as aspirações, organizar e sistematizar os sentimentos do proletariado revolucionário - eis o objetivo: não a arte política, mas a socialização da arte. (p.140, 141)

2. Para os construtivistas, um novo mundo tinha nascido e acreditavam que o artista, ou melhor, o designer criativo devia ocupar seu lugar ao lado do cientista e do engenheiro. Essa idéia não constituía novidade. Arquitetos como Louis Sullivan e seu aluno Frank Lloyd Wright, Henry van de Velde e o futurista Antônio Sant'Elia, entre outros no século XIX e começos do XX, tinham proposto, de maneira semelhante, não ser mais o artista plástico, e sim o engenheiro quem estava agora na fronteira do novo estilo. (p.141)

3. "Não queremos fazer projetos abstratos, mas tomar problemas concre­tos como ponto de partida", escreveu Alexei Gan, um dos teóricos do movi­mento. Conveniência social e significação utilitária, produção baseada em ciência e técnica, em lugar das atividades especulativas dos artistas antece­dentes, eram os princípios básicos do construtivismo. (p.142)

4. Iconoclastas, rejeitaram a preocupação burguesa com a representação e a interpretação da realidade. Repudiaram a idéia da arte pela arte. A direção materialista de suas obras desvendaria, acreditavam eles, estruturas formais, novas e lógicas, as qualidades e a expressividade inatas dos materiais. E na fabricação de coisas socialmente úteis, a própria objetividade dos processos revelaria, além disso, novos significados e novas formas. (p.142)

5. O que esses artistas propuseram era consistente com a afirmação de Marx de que o modo de produção da vida material determina os processos sociais, políticos e intelectuais da vida. Acreditavam os construtivistas que as condições essenciais da máquina e da consciência do homem criam inevita­velmente uma estética que refletiria sua época. (p.142)

6. A pintura e a escultura não foram inteiramente descartadas. Não eram fins em si, de acordo com os princípios do realismo construtivista, mas fa­ziam parte de processos através dos quais a arquitetura ou os produtos indus­triais eram inteiramente realizados. A concepção de Lissitzky do proun assinala isso. Proun é uma abreviação da frase russa que significa algo como "novos objetos de arte". Esse paradigma do realismo construtivista pretendia, em sua essência, veicular a idéia de evolução criadora, começando com o pla­no horizontal e versões mais ou menos ilusionistas (uma espécie de planta de arquiteto ou projetista), seguido pela fabricação de modelos tridimensionais, até, finalmente, a realização total na construção de objetos utilitários. Proun era, simplesmente, um método de trabalho, em total harmonia com os mo­dernos recursos tecnológicos. (p.143)

7. Talvez o mais apropriado símbolo da unificação da pintura, escultura e arquitetura com o órgão de informação e propaganda do Estado tenha sido a extravagante síntese de Tatlin, projetada em 1917 e 1920, denominada Mo­numento à Terceira Internacional [foto acima]. (p.144)

8. A herança tecnologicamente primitiva da Rússia czarista impediu por muito tempo a concretização dessas idéias avan­çadas. A torre de Tatlin não poderia ter sido erigida sem as maiores dificulda­des, se é que sua construção tinha alguma viabilidade. Assim, os elevados ideais e a geometria emblemática do construtivismo não refletiam tanto a ciência e a tecnologia russas quanto as do Ocidente. Lissitzky, escrevendo em Moscou em 1929, deixou isso claro: "A revolução técnica na Europa ocidental ena América estabeleceu os alicerces da nova arquitetura." Ele apontou espe­cificamente os grandes complexos urbanos de Paris, Chicago e Berlim. (p.145)

9. Foi em grande parte por causa dessa carência que se iniciou em 1918 um programa intensivo para o treinamento de artistas-projetistas. Novas escolas, Oficinas de Arte e Técnica Superiores denominadas VKhUTEMAS (de Vishe KhUdozhestvenny Teknicheskoy Masterkoy), surgiram em várias cidades, e a própria utilização de tais siglas, bastante comuns na nova Rússia, é em certa medida uma demonstração etimológica de sua simpatia pela moderna tecnocracia. (p.145)

10.O programa para essas escolas foi organizado inicialmente por Wassily Kandinsky. Baseado principalmente num amálgama das idéias expos­tas em seu livro Do espiritual em arte, sobre o suprematismo e sobre os concei­tos incipientes do construtivismo conhecidos como a "cultura dos materiais", esse programa tornou-se mais tarde o protótipo para partes do curso da Bauhaus alemã. Na Rússia, porém, não tardou a cair em descrédito. A pintura e a escultura livres foram proscritas, assim como o ensino das análises um tanto metafísicas de cor e forma de Kandinsky, e o curso foi reorganizado com a ên­fase recaindo agora sobre as técnicas de produção em lugar do projeto artístico. Desiludidos, Kandinsky e Gabo não tardaram em deixar a Rússia para traba­lhar em outros países, onde suas idéias, realçando o conteúdo espiritual da arte, foram mais prontamente aceitas.(p.145)

11.Em 1916, Malevich disparou uma salva de trapezóides com seu Suprematismo destrutor de forma construtivista. Seu Branco sobre branco (c. 1918] foi uma afronta para Rodchenko, que contra-atacou nesse mesmo ano (o ano em que foram inauguradas as VKhlJTEMAS) com Preto sobre preto. Esse quadro sim­bolizou a morte de todos os ismos em arte, especialmente o suprematismo. Trotsky e Lunacharsky tinham apoiado o construtivismo, mas, com a NEP em 1921, a Nova Política Econômica de Lênin, a utilidade do construtivismo passou a ser seriamente questionada. Entretanto, esses artistas - e Malevich -continuaram trabalhando na Rússia, embora sua influência tivesse declinado consideravelmente. (p.146)

12.Gabo defende o uso, pelo artista construtivo, das formas elementares e das ferramentas e técnicas do engenheiro. Mas as linhas, formas e cores, acre­dita ele, possuem seus próprios significados expressivos independentes da natureza. O seu conteúdo não se baseia diretamente no mundo externo, mas resulta dos fenômenos psicológicos que são as emoções humanas - algo que os construtivistas jamais poderiam aceitar. E através do engrandecimento de nossa vida espiritual que o ato criador, diz ele, contribui para a existência ma­terial. A "Idéia construtiva" não pretende, insiste Gabo, unir arte e ciência, ex­plorar as condições do mundo físico, mas captar sua verdade. Isso, diriam os construtivistas e seus seguidores, era puro romantismo e sofisma da arte abs­trata. O construtivismo, para dar ao termo o seu significado original, repudia o conceito de "gênio": intuição, inspiração, auto-expressão. O construtivismo é didático, dirige-se mais para a fisiologia do que para a psicologia, tem inti­midade com a ciência e a tecnologia, é concreto. (p.146)


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