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Do Espiritual na Arte, Kandinsky, 1910


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Composition IV 1911

Composição IV - 1911

A contribuição de Kandisnky para compreendermos a pintura moderna é fantástica. Como pensador, entendeu sua época com precisão e como visionário profetizou as futuras tendências das artes. Além de pensar seu contexto, produziu e praticou seus pensamentos, fez arte e nos deixou um legado consistente de obras visuais que servem de testemunha da sua teoria. Permitindo um precioso contato com uma das bases da arte moderna, em especial nos pilares da pintura abstrata. Há quem diga que sua maior contribuição às artes plásticas fora justamente sua obra teórica. Acredito que não seria a mesma sem a prova de sua sensibilidade como pintor. Do espiritual na arte nos conduz com riqueza de conteúdo e método às premissas e análises dignas de grande mestre, tanto nas letras quanto nas formas e cores. Este livro foi concluído em 1910. No mesmo ano que Kandinsky pinta seu primeiro quadro abstrato, uma aquarela. Esta ligação entre teoria e prática é uma das características essenciais da sua obra. Seu pensamento é rigoroso, mas nunca independente da sua sensibilidade. Em um ano (1911-1912) Do espiritual na arte teve três edições sucessivas, provavelmente um dos livros mais lidos nos ateliês e bibliotecas.

Do meu interesse em particular pela metafísica e pela pintura abstrata, não tardei em ler esta obra prima, contudo do espiritual, Kandisnky nos mostra algo de objetivo, que veremos adiante como uma "necessidade interior" não com algo sobrenatural, mas direcionado ao homem como um ser dotado de razão e intuição, de lógica e sensibilidade, sobretudo de alma. Influenciado pela teosofia, o artista russo consegue estabelecer uma conexão entre o objeto da arte e a experiência humana. O que torna místico e herdeiro da influência teosófica são suas considerações sobre a obra como um ser dotado de alma, que tem vida própria e quando "a obra assim produzida será sem alma para sempre", compara a atitude de artistas tentarem reviver princípios artísticos de séculos passados, mas considerando que arte é filha de seu tempo, acabam por gerar obras mortas. E aponta outra tendência próxima da imitação, a similitude com tendências morais e espirituais de uma época que podem gerar formas similares as obras de tais épocas, o que explica a empatia e afinidade espiritual pelo primitivo. Dito artistas puros ligados em suas obras "assim como nós" pela essência interior, eliminando os adornos. Segundo o autor, este ponto de contato com o primitivo, com as formas 'essenciais' possui o germe para o futuro, mas não é suficiente para despertar a alma 'humana' oprimida pela filosofia materialista e pessimista de seu tempo.

Kandisnky faz severas críticas ao 'sistema da arte' e alerta ao perigo da "arte pela arte" quando o "espectador procura na obra de arte uma simples imitação da natureza". Quando percebe um público geral, assim como os 'entendidos', preocupados apenas com a forma exterior das obras, com as habilidades do pintor, em representar com virtuosismo a harmonização do conjunto na tela: "As almas famintas partem famintas. A multidão arrasta-se de sala em sala e acha as telas 'bonitas' e 'sublimes'". Mas são estéreis não projetam luz nas profundezas do coração (Schumann). Não há comunicação e mantém a alma em seu atual estado de indiferença: "Aquele que podia ouvir nada ouviu.". E o artista busca a recompensa material para sua habilidade. Reproduzindo apenas o que já está materializado na atmosfera de seu tempo, produzindo obras sem potencial de futuro. Kandisnky espera de uma obra, não apenas o eco e espelho do seu tempo, mas também uma potência geradora "uma força de despertar profética, capaz de uma vasta e penetrante irradiação". Compara o desenvolvimento de uma obra de arte com o movimento ou processo do conhecimento, evolutivo, de ordem espiritual. Outra grande influência da teosofia. A ideia de evolução para a arte e esta origem espiritual para as coisas e os seres. Kandisnky recebe esta influencia pelas idéias de Helena Blavatsky, maior expoente da Teosofia moderna, e comenta: "É dessa época que data o grande movimento espiritual cuja forma visível é hoje a 'Sociedade de Teosofia'[...] A teoria teosófica é a base desse movimento. Ela foi exposta por Blawatsky sob a forma de um catecismo em que o aluno recebe respostas precisas para as suas perguntas [...] Segundo Blavatsky, teosofia é igual a verdade imperecível".

Entre tantas coisas que poderiam ter feito Kandisnky, em sua busca metafísica, se aproximar da teosofia, é seu gosto pela oposição ao método positivista materialista que tratando das mesmas questões oferecem respostas precisas, através do conhecimento 'interior'. Kandisnky deixa claro sua antipatia pelos defensores do positivismo: "Estes homens só reconhecem o que pode ser medido e pesado. O resto para eles é uma perigosa loucura do gênero daquela de que tachavam ontem as teorias hoje 'demonstradas'. Não é difícil imaginar porque Kandisnky buscou uma linha filosófica metafísica que pudesse oferecer sentido para a vida e transcendência do ser; pois, dotado de extrema sensibilidade para as artes, a começar pela música, é testemunha do abalo causado pelo sistema filosófico pessimista de Nietzsche que desmonta qualquer estrutura antes sólida e ataca qualquer idealismo metafísico. E nas ciências, é testemunha de tantos avanços no campo do invisível, como a teoria da relatividade especial (1905) de Einstein; desabafa: "Numa época em que as bases da realidade são afetadas, em que nossos sentidos desvendam não mais que um conjunto de fenômenos que em última análise tem poucas relações com a realidade 'última' das coisas, o pintor deveria então voltar-se para si mesmo [...] Quando a religião, a ciência e a moral (esta última ela mão rude de Nietzsche) são abaladas, e quando os apoios exteriores ameaçam ruir, o homem desvia seu olhar das contingências exteriores e dirige-o para si mesmo". Eis o ponto de acesso, a mente oprimida do artista sensível ao seu tempo, que busca uma base filosófica para sustentar a potência de sua criatividade e levantar sua obra, na teoria e acima de tudo, na prática da sua experiência como artista.

Kandinsky nasceu em Moscou em 1866, aos 20 anos de idade estudou direito e economia na universidade de Moscou, de onde adquiriu método, ainda menino, começou a estudar a arte por meio da música. Aos 30 anos muda para Munique passando pelos cursos de arte na escola de Anton Azbé, é nessa época que conheceu Paul Klee, que mais tarde viria a ser um grande amigo. Insatisfeito com o seu aprendizado inscreveu-se no curso do Prof. Von Stuck, mas foi rejeitado, retornou um ano depois, quando finalmente foi aceito. Permaneceu no ateliê de Stuck até 1900 e em 1901 fundou a "Phalanx" (Falange) uma associação de artistas – expositores, que foi inaugurada com a exposição de obras suas e de seus colegas do ateliê de Stuck dentre eles Stern, Hüsgen , Hecker e Klee. A cidade de Munique tornou-se o centro da arte vanguardista daquela época. O artista foi convidado a lecionar na escola Bauhaus, em Weimar, que foi transferida para Dessau e fechada pelo nazismo em 1933. Kandinsky foi para a França e lá viveu o resto de sua vida (1944), tornando-se cidadão francês em 1939.

Do espiritual na arte é dividido em dois capítulos principais: Generalidades e Pintura. O primeiro contextualiza a crise da arte e aponta sua tendência para uma progressão espiritual. Não tarda em fornecer de início uma pista para sua investida: "...o macaco senta, segura um livro e o folheia com ar grave. Mas essa mímica é desprovida de qualquer significação." O objeto da arte como uma atitude do espírito e um ser em si dotado de significação, um significante. Não mera imitação ou reprodutora de significados. E valoriza a empatia da arte primitiva, essencial, livre de contingências, de resíduos exteriores que poderiam velar o conteúdo e distrair os sentidos. E no tom da poesia com voz de profecia Kandinsky alerta para uma fuga do materialismo estéril e crescente de sua época, situando duas tendências na arte nova, atraídas por este primitivo, logrando formas da arte do passado.

Em Generalidades o autor fundamenta sua tese, quase um manifesto, traçando antes o panorama geral de sua época. Permite-nos conhecer as premissas do seu pensamento, introduzindo com maestria a idéia do 'espiritual' na arte, para que esta seja mensageira do futuro e leve o homem para frente numa espécie de evolução espiritual onde a arte tem um papel vital. Neste sentido, a atividade criadora artística é messiânica, na função de revelar à maioria dos homens os novos parâmetros do progresso espiritual. Era assim que Kandinsky concebia a atividade artística que elaborava o abstracionismo. Para ele, "todo aquele que mergulhar nas profundezas da sua arte, à procura de tesouros invisíveis, trabalha para elevar esta pirâmide espiritual, que alcançará o céu".

Kandisnky critica de modo veemente a arte materialista de seu tempo, a arte sem alma, que tem como 'Credo' apenas o método para emprego da forma, "princípio exterior que só vale para o passado e jamais para o futuro". Uma sociedade materialista que zomba do artista visionário que tem fome de iluminação, que prepara o futuro. Kandisnky queria enfatizar a necessidade de comunicação da obra, de modo que tocasse as emoções diretamente, como um fermento espiritual e estimulava a busca para o próprio "conteúdo da arte, sua essência, sua alma, sem a qual os meios que a servem nunca serão mais do que órgãos lânguidos e inúteis". Conteúdo este, que é inexprimível por meios que não sejam os próprios da arte. Nessa busca de uma linguagem visual para a nova arte, arte para "almas sedentas de imaterial" o autor faz várias analogias com a música e com a literatura: "A palavra é um som interior. [...] A palavra tem, por conseguinte dois sentidos: um sentido imediato e um sentido interior. Ela é pura matéria da poesia e da arte, a única matéria de que essa arte pode servir-se e graças à qual consegue tocar a alma". E nos apresenta o "Belo interior", aquele que nos impele uma necessidade interior, quando renunciou todas as formas convencionais do Belo. Seguindo de exemplo a musica do compositor Arnold Schönberg e como se esforçava para esgotar a liberdade em busca da música futura, "onde as emoções musicais já não são somente auditivas mas, sobretudo, interiores".

Apresenta-nos Cézanne como o pintor que conseguiu dotar os objetos de alma: "Não é nem um homem, nem uma maça, nem uma árvore que Cézanne quer representar; ele serve-se de tudo isso para criar uma coisa pintada que proporciona um som bem interior e se chama imagem". Reverencia Matisse com seu dom de colorista. E Picasso com sua força impulsiva pelas formas. Considera Matisse na cor e Picasso na forma, como artistas que partilham de um mesmo objetivo: A beleza interior.

Anuncia a proximidade cada vez maior entre as artes, nessa mudança de rumo espiritual que tende para o "não realista", "para o abstrato, para a essência interior. Conscientemente ou não, os artistas seguem o 'conhece-te a ti mesmo' de Sócrates". E aponta o sinal para o nascimento da verdadeira arte monumental através da união das artes pela sua essência, cada qual com sua força. E alerta para que cada arte seja capaz de evocar a natureza sem ter que imitá-la exteriormente, transpondo "as impressões da natureza em sua realidade íntima mais secreta".

Em Pintura o autor aplica o princípio da necessidade interior através de uma análise metódica e organizada, científica e inicia um tratado sobre a linguagem visual. Tendo como princípio o 'contato eficaz' que as cores e formas, geram em nossa alma, como as cordas de um piano são acionadas pelas teclas: "O artista é a mão que, com a ajuda desta ou daquela tecla, extrai da alma humana a vibração certa."

Kandisnky defende a forma abstrata como poderoso elemento construtivo capaz de causar ressonância sobre a alma e valoriza o sentimento do artista como único instrumento capaz de dosar a mistura entre abstrato e concreto. A maneira que tem o artista de alcançar a alma de cada forma e de cada cor, bem como de cumprir seu papel messiânico no progresso espiritual da humanidade é seguir o "guia infalível", a necessidade interior. Composta por três componentes - Elemento da personalidade, o que é próprio de cada artista, enquanto ser criador (estilo pessoal, expressão pessoal). Elemento próprio de cada época, da cultura de um povo (estilo de época, expressão coletiva). E o elemento artístico puro e eterno, que é próprio da Arte (atemporal, percepção do divino). Destes três componentes, o mais importante é, para Kandinsky, o terceiro. Pois, somente o elemento de arte puro e eterno conservará seu valor no tempo, que só fará aumentar sua força: "uma escultura egípcia nos emociona hoje certamente mais dos que emociona os homens que a viram nascer". E declara que o desenvolvimento da arte está atrelado na conquista do subjetivo pelo objetivo, numa "exteriorização progressiva do eterno-objetivo no temporal-subjetivo".

O futuro na gramática da pintura estará mais apoiado nas leis da necessidade interior do que nas leias da física. E numa tentativa de introduzir esta nova gramática a partir de seus significados espirituais Kandisnky demonstra a cor, a partir de quatro variáveis o calor ou o frio da cor, que são traduzidos empiricamente pela tendência geral da cor em dirigir-se para o amarelo (quente) ou para o azul (frio) e a claridade ou a obscuridade da cor. O par amarelo e azul produz dois movimentos gerais, um horizontal e outro excêntrico/concêntrico. No movimento horizontal, o amarelo realiza um deslocamento psíquico da cor em direção ao observador (corporal) enquanto que o azul, ao contrário, realiza um deslocamento do espectador em direção à cor (espiritual). Por outro lado, o amarelo é responsável por produzir um movimento excêntrico, isto é, de distanciamento de seu próprio centro enquanto que o azul realiza movimento diverso, em direção ao seu próprio centro (concêntrico). Passando em revista todas as outras cores do espectro, declarando suas componentes psíquicas, em função das quatro variáveis iniciais. Defende o sentimento e desenvolvimento da sensibilidade pela prática, acredita que o equilíbrio e as proporções estão no próprio artista, e esse sentimento inato que trata em termos de talento no sentido evangélico, que guiará o artista na sua busca do verdadeiro na arte. Esta experiência interior ou intuição em contraponto com a combinação física das cores pode realçar o valor espiritual da composição, logo, cores que eram consideradas desarmônicas como o vermelho com azul, que aparentemente não possuem conexão física, de fato podem possuir um grande contraste espiritual, esta lei dos contrastes, em todas as épocas foi a mais importante em arte.

Quanto a forma, Kandisnky percebe que ao eliminar a narrativa, o figurativo da tela, ele retira o "efeito da lenda" que faz o homem se deter e com isso deixar de extrair da obra seu conteúdo interior, a vida da tela e deixar que ela atue diretamente sobre ele. Fazendo uma analogia aparentemente simples com a linguagem verbal quanto a sua finalidade de comunicar idéias e sentimentos, questiona a necessidade do espectador deixar que a obra de arte também comunique pela sua própria linguagem sensações que somente ela poderá comunicar. Contudo, para as artes plásticas é mais difícil esta comunicação, pois o público geral gosta de se manter na superfície e para se comunicar é necessário aprofundamento, mas para chegar neste nível é necessário remover o véu exterior que detém o espectador, a narrativa. É necessário arrancar o homem da rotina utilitária da vida cotidiana, e para isso nada melhor do que mergulhá-lo em pensamentos abstratos. A abstração também permitiria o estado atemporal da obra mantendo-se viva para o futuro, assim como os números. E defende a liberdade na manipulação das formas pelo artista a fim de alcançar seus objetivos, citando Goethe: "o artista está acima da natureza com seu espírito livre, e pode tratá-la segundo a finalidade elevada que ele persegue." Porém, a forma jamais deverá dominar o conteúdo, mas ser dominada e adaptada para ele. É pelo conteúdo da obra que o artista se comunicará com o seu público, através da 'linguagem da alma'. E carregando o pesado fardo de seu talento, cabe ao artista frutificar esse talento, e transfigurar na arte sua matéria em atmosfera espiritual. "Esse 'belo' de que o artista é o sacerdote deve ser procurado apoiando-se no princípio do valor interior". Pois, "é belo o que provém de uma necessidade interior da alma. É belo o que é belo interiormente".

Um livro para ser lido, relido e sublinhado, transborda conhecimento. Aos amantes do abstracionismo 'lírico' uma obra prima, para os defensores da narrativa do figurativo, um convite a penetrarem no universo místico que perpassa o território da arte diante de sua potência geradora de sensações e liberdades conquistadas a partir do século XX. Ainda que o objeto formal concreto seja ponto de partida de um artista, ele poderá experimentar a partir da leitura deste livro o universo da fenomenologia como campo de experiências estéticas verdadeiras que não necessitam de um motivo ou utilidade. Proporcionando grande liberdade de criação, pois o centro de todo o sistema está no próprio artista.

Herdeiro do pensamento kantiano, aceita que o artista esteja sujeito a categorias absolutas de tempo e espaço, e seja influenciado pelo seu contexto geral e particular, e que se expresse livremente trazendo inevitavelmente elementos de sua personalidade. Mas para Kandinsky, o alvo principal do artista deveria ser alcançar a própria 'Arte' que está livre de qualquer categoria de tempo e espaço e permanece eterna como puro elemento presente em todos os seres humanos capaz de conectá-los e comunicar, assim como o 'Evangelho', a consciência de sua essência verdadeira, conduzindo a humanidade para a evolução espiritual.

Tratou a 'Arte' com idealismo metafísico, e seu fim serviria para encaminhar o homem ao processo evolutivo até o alcance de sua transcendência. Sem cair no puro formalismo, Kandisnky conduziu com maestria sua teoria da arte 'mística' com base em seu sólido conhecimento filosófico. Um projeto audacioso que fez da arte sua religião. (Resenha dos Capítulos I e II do Livro Do Espiritual na Arte e na Pintura em particular, São Paulo: Martins Fontes, 1996 por Ralf Ramos)


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