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Iconologia de Panofsky


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Caravaggio

Indispensável na biblioteca dos historiadores de arte, o livro "Significado nas Artes Visuais" de Erwin Panofsky reúne uma série de ensaios sobre teoria da arte. Em sua 3ª edição pela Editora Perspectiva, com tradução de Maria Clara F. Kneese e J. Guinsburg, o livro inclui versões revistas de antigos artigos (Caps. 4 e 7); reimpressão de trabalhos publicados em Inglês (Introdução, Epílogo, Caps. 1 e 3); e traduções do alemão (Caps. 2, 5, 6).

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Vik Muniz

Na introdução: A História da Arte como uma disciplina Humanística, que foi publicada inicialmente em 1940 com o título: The Meaning of the Humanities, Princeton, Princeton University Press, PP. 89-118; o autor posiciona precisamente o historiador de arte como um humanista em oposição ao cientista, que deverá rejeitar a autoridade e respeitar a tradição, como algo real e objetivo que deve ser estudado e se necessário reintegrado. Pois os registros do homem emergem da corrente do tempo. Diferente do cientista que também trabalha com registros humanos, mas não os trata como objeto de investigação e sim como materiais que ajudam na investigação sendo absorvidos pela mesma, contudo, "se o cientista moderno ler Newton ou Leonardo da Vinci no original, ele o faz não como cientista, mas como homem interessado na história da ciência. [...] Do ponto de vista humanístico, os registros humanos não envelhecem" (página 24). O autor conclui com a excelente comparação entre a ciência, que "tenta transformar a caótica variedade dos fenômenos naturais no que se poderia chamar de cosmo da natureza" e as humanidades que "tentam transformar a caótica variedade dos registros humanos no que se poderia chamar de cosmo da cultura." (página 24, 25).

A importância desta introdução no livro se dá pelo fato de nos fornecer uma 'lente' focada para a compreensão dos capítulos que se seguem. Lente que nos mostrará um historiador sistematizando um método (histórico) de interpretação das obras de arte através de uma situação orgânica que se estabelece na análise da obra de arte com a recriação estética intuitiva e a pesquisa arqueológica, gerando o que chamou de síntese recriativa.

Argan (ARGAN, Giulio Carlo. A História da Arte como História da Cidade, 1998) confere mérito a Panofsky por ter entendido que é possível fazer a história da arte como história das imagens. Panofsky propôs, a partir do objeto artístico, reconstruir seu contexto histórico e recriar todo o processo de elaboração daquela imagem. Através do método que chamou de iconológico, sistematizado no capítulo 1 - Iconografia e Iconologia: um Introdução ao Estudo da Arte da Renascença, reimpressão de um artigo muito conhecido após ser publicado em 1939 como 'Introducion' em Studies in Iconology: Humanistic Themes in the Art of the Renaissance, Nova York. Sendo este, uma síntese de um artigo de 1932. Com este artigo, Panofsky entrou para os 'clássicos' da história da arte, rendendo muitas discussões e críticas.

Panofsky já detinha reconhecimento internacional. Em 1924 publicou a obra Idea, em 1931 foi convidado a lecionar na Universidade de Nova York, alternando períodos entre Hamburgo e Nova York até sua estada definitiva nos EUA em 1934.

O autor, no desenvolvimento do seu método iconológico, parte da definição de iconografia: "ramo da história da arte que trata do tema ou mensagem das obras de arte em contraposição à sua forma" (página 47). Introduzindo com detalhes e comparações a origem do termo (epistemologia): "sufixo 'grafia' vem do verbo grego graphein, 'escrever'; implica um método de proceder puramente descritivo, ou até mesmo estatístico. A iconografia é, portanto, a descrição e classificação das imagens, assim como, a etnografia é a descrição e classificação das raças humanas" (página 53). Destacando a diferença da iconografia em classificar e evidenciar, e da iconologia em "investigar a gênese e significação dessa evidência: a interação entre os diversos 'tipos'; a influência das idéias filosóficas, teológicas e políticas; os propósitos e inclinações individuais dos artistas e patronos; a correlação entre os conceitos inteligíveis e a forma visível que assume em cada caso específico" (página 53).

Para tornar visível e clarificar a distinção dos termos confusos e desacreditados em sua época no EUA, Panofsky segue confiante e didático na formatação do seu método usando exemplos do senso comum para distinguir três níveis de significado. O significado primário ou natural, que se dá pela simples apreensão de formas conhecidas pela experiência prática (significado fatual), ou por empatia e sensibilidade (significado expressional). Este primeiro nível, natural, está associado à identificação dos aspectos formais, linha, cor, materiais; pela identificação de suas relações mútuas e percepção de qualidades expressionais, como poses e gestos. As formas puras reconhecidas como portadoras de significados primários podem ser chamadas de motivos artísticos e a enumeração destes motivos constitui uma descrição pré-iconográfica numa obra de arte. Destaquemos aqui a crítica de Panofsky a Wöufflin que defende um método de análise da obra de arte baseado em descrições 'puras' das formas artísticas, pregando a autonomia da arte enquanto forma. Panofsky argumenta que não há como separar os dados formais numa descrição primária da figuração de seu conteúdo, por ter um significado passível de ser reconhecido (mundo dos motivos artísticos).

O segundo significado, tema secundário ou convencional surge da ligação do primário com os conceitos e assuntos, formando o que podemos chamar de imagens e que os antigos teóricos chamavam de invenzioni, mais conhecido como estórias e alegorias. As imagens, estórias e alegorias pertencem ao domínio da iconografia. E a análise iconográfica depende da exata identificação dos motivos (pré-iconográfico). Neste ponto vale destacar a importância da obra Iconologia de Cesare Ripa no século XVI, por estar mais encaixada na visão de iconografia colocada por Panofsky, que deslocará a iconologia para um terceiro estágio do significado na obra de arte - a interpretação.

O significado intrínseco ou conteúdo, que "é apreendido pela determinação daqueles princípios subjacentes que revelam a atitude básica de uma nação, período, classe social, crença religiosa ou filosófica – qualificados por uma personalidade e condensados numa obra" (página 52). O autor associa este nível de significado ao que Ernest Cassier chamou de valores 'simbólicos'. Ao descobrir e interpretar estes valores simbólicos o historiador estará fazendo uma interpretação (síntese), designada como iconologia em contraposição a iconografia (análise). Define a iconologia como uma iconografia que se torna interpretativa tornando assim parte integral do estudo da arte.

Panofsky conhecendo os riscos dos requisitos (equipamentos) subjetivos – experiência prática, familiaridade com temas e conceitos, fontes literárias, além da intuição sintética –, para o estudo iconológico e define alguns princípios corretivos para lastrear os três objetos inseparáveis da interpretação. São eles: a história do estilo no primeiro tema ou natural (mundo dos motivos), usada na descrição pré-iconográfica; a história dos tipos no segundo tema ou convencional (mundo das imagens, estórias e alegorias), que se faz na análise iconográfica e por fim, a história dos sintomas culturais ou símbolos na interpretação iconológica. A soma destes princípios corretivos – história dos estilos, tipos e sintomas culturais ou símbolos – é o que Panovsky chama de tradição, responsável pela validade do método iconológico, assim como, pela disciplina História da Arte. Fazendo desta uma disciplina humanística e não uma ciência. Estes três métodos fundem-se num processo orgânico e indivisível. Eis a situação orgânica do historiador.

Quando Panovsky compara o sistema simbólico de Cassier com os sintomas culturais refere-se à teoria de que "o homem não é somente um animal racional, mas precisamente um animal simbólico [...] Seria esse 'véu', mediador da relação artista e realidade, diverso em espaço e tempo (e nem sempre consciente ao artista) que Panofsky quer entender, ou seja, a dimensão simbólica da obra" (PIFANO, Raquel Quinet. Revista de História e Estudos Sociais, nº 3, 2010).

Não é por acaso, que o sistema de Cassier combine com a história dos sintomas culturais, pois os dois foram discípulos de Aby Warburg que entendia a história da arte do ponto de vista cultural.

Conclui-se que o historiador da arte deverá avaliar o que julga ser o significado intrínseco da obra ou grupo de obras sobre as quais se inclinar, tomando como base o que acredita ser o significado intrínseco dos demais documentos da civilização historicamente correspondente a obra em estudo. E neste ponto que as muitas disciplinas humanísticas encontram-se, deixando de "servirem apenas como criadas uma das outras" (página 63).

De fato, tratamos aqui de um livro referência para os historiadores de arte, principalmente para o estudo da produção na pintura, escultura e arquitetura do ponto de vista iconológico. Método precioso enquanto trata de uma produção temática que pretendia comunicar, educar, trazendo em si um conteúdo intrínseco e, como acreditava o autor, cumprir através da arte o papel de aperfeiçoamento do indivíduo. Ele mesmo viveu um período de grande transformação na arte moderna, a mudança de eixo da Europa para os EUA, mas não se deteve muito na produção contemporânea, talvez porque esta estivesse limitada apenas a cultura subjetiva do seu autor, não fornecendo parâmetros de estilo.

Acredita-se que atualmente, após termos passado por todos os tipos de manifestações na arte (ou quase todos), seja válido como instrumento de crítica a 'lente' iconológica de Panofsky, a fim de possuirmos um repertório visual mais apurado através da interpretação histórica das imagens criadas pela humanidade e assim, podermos dialogar com uma produção contemporânea que explora este universo iconográfico. De fato, é uma realidade, que muitos artistas têm utilizado a história da arte como referência e base para desenvolver suas criações, quando não realizam apenas releituras de obras passadas, seja por tentativa de validar sua arte, ou aproximar suas obras do grande público, ou quem sabe afastá-las criando objetos de apreciação para 'iniciados' num complexo sistema de decodificação de imagens que buscam suas próprias satisfações intelectuais. E servem de eco para uma arte sobre a própria história da arte, mas isso é outra estória.


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