A questão do mal é uma matéria difícil de esgotar e as dúvidas sobre sua relação com a providência divina faz-se presente na mente de todos as pessoas, principalmente os crentes, que tentam relacionar esta questão com o Deus das Escrituras, geralmente quando são vítimas do mal ou são confrontadas por incrédulos. Contudo, a maioria não busca a investigação, ou por medo de não achar a resposta ou por identificar neste processo um ato de falta de fé e humildade.
Só que não é bem assim, é dever do crente, investigar, todas as questões em aberto que gritam nas sociedades de todas as épocas, buscando um estudo sério, analisando as respostas de vários eruditos e principalmente lastrear esta investigação às Escrituras, se limitando a estabelecer conceitos daquilo que foi revelado. Pois, não podemos iniciar um estudo de tamanho espectro sem delimitarmos e conceituarmos o que temos revelado da natureza do Santo Deus, de modo que um bom conhecimento de seus atributos se fará de grande auxílio no difícil trajeto que se segue. Disse o pregador, “Há propósito para todas as coisas debaixo do céu”, então não estamos entregues ao acaso, toda a criação está debaixo dos planos de Deus. Logo, o mal moral também faz parte dos planos de Deus. Nas Escrituras lemos que Deus “faz todas as coisas, segundo o conselho da sua vontade” (Ef 1.11b), todas a existência, assim como seu oposto, fazem parte do plano eterno do Deus Todo Poderoso. Pode-se entender que o conselho da vontade de Deus não depende da opinião de ninguém exceto de sua própria natureza trinitária. “Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro? (...) Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11. 34, 36). Portanto, negar que a existência do mal, ou inexistência do bem tenha como propósito último à glória do Deus soberano, seria negar a natureza divina, para qual são todas as coisas. Se negarmos a soberania divina na decisão de fazer vir à existência todas as coisas, seria o mesmo que afirmar que Deus não tem controle sobre o mal. Ao analisar o texto de Isaias 46 de 9 a 11, define-se que ele anuncia o que há de acontecer e as coisas que ainda não aconteceram, logo, todos os eventos acontecidos no mundo são produto da intervenção providencial de Deus, não achamos lugar para o acaso. Ele também revela que seu conselho permanecerá de pé, e fará toda sua vontade, fazendo assim, que todos os seus decretos sejam cumpridos por meio de sua criação, sejam homens ou animais, pois, todos são instrumentos da vontade decretativa e infalível de Deus. Mas, como podemos entender que Deus permite que o mal venha à existência por meio da criação, para que se cumpra seu decreto, sem ser o autor do mal? Como entender que a presença do mal não é alheia à vontade de Deus? Precisamos entender que “os homens são as causas secundárias controladas pela causa primária sem, todavia, serem manipulados” (p.363). Para isso devemos abordar alguns conceitos sobre causas, sem abrir mão da verdade de que “Deus é criador de todas as coisas”, afirmada pelo apóstolo Paulo na carta aos colossenses: “Pois nele foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1. 1-17). Conceito de Causa Última – Ou causa Primeira, é aquele que determina decretativamente o acontecimento de um evento. Pode-se afirmar que nada do que acontece está fora do plano da causa última. Logo, Deus é a causa última de todas as coisas que acontecem no mundo. Conceito de Causa Positiva – Deus é a causa positiva de tudo que é bom. Ele é o Sumo Bem, “porque Deus é quem efetua em vós tanto o quere como o realizar, segundo sua boa vontade” (Fp 2.13). Logo, Deus não é a causa positiva do pecado; ele está por detrás do bem e do mal, de modo diferente. Conceito de Causa Negativa – Deus está por detrás do mal de modo negativo, geralmente quando erramos ou acontece pior, não damos “Graças a Deus”. “Os seres humanos não precisam de ajuda para fazer o que lhes é próprio em seu estado pecaminoso”. Logo, “o pecador vem a praticar o mal por sua própria pecaminosidade, e o decreto divino venha a ser realizado de modo infalível”. “Deus decreta a existência do mal, mas este é realizado somente por meio das criaturas racionais. Portanto, Deus não é a causa positiva do mal. Deus é a causa negativa do mal” (p.365). Conceito de Causa Secundária – É um instrumento de efetivação de um decreto da causa última, seja ele bom ou mal. Agindo positivamente, Deus capacita os homens a fazerem o bem. E agindo negativamente, Deus permite que os homens cometam o mal sem influenciá-los, pois este é próprio do homem. Esta verdade aplica-se também aos anjos caídos. Portanto, “ninguém ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal, e ele mesmo a ninguém tenta” (Tg 1. 13). Deus não pode ser moralmente culpado pelo que fizemos. Talvez a melhor ilustração para clarear esta questão, seja a de Jonathan Edwards: “o sol é a causa positiva do dia”, pois se ele resolver se retirar da terra, esta voltará a ficar em seu estado original, logo, o sol é a causa negativa das trevas, porque as trevas não foram produzidas pelo sol, mas um resultado de sua ausência deixando a terra como ele é, à sua própria natureza (p.367). Da mesma forma, Deus ausentando sua graça, permite de modo negativo que o mal venha à existência, através da “própria liberdade de agência das criaturas secundárias, onde o mal é nascido” (p.368). “Por causa dessa liberdade de agência, Judas é considerado por Deus responsável pela traição de Jesus” (p.369): “Porque o filho do homem, na verdade, vai segundo o que está determinado, mas ai daquele por intermédio de quem ele está sendo traído” (Lc 22. 22). Portanto, Deus não pode ser o autor do mal, nem responsável pelos pecados do mundo. Diante deste pensamento, precisamos esclarecer um elemento essencial aos seres morais, os homens, trata-se da liberdade, contudo é fundamental definir o tipo de liberdade que os homens detêm. Esta liberdade não significa “neutralidade moral”, ou seja, liberdade que leva o individuo a agir sem inclinação interna ou externa, suas atitudes não são baseadas numa vontade que age sob os efeitos do pecado ou da santidade. “Ele age porque decidiu agir, sem qualquer tipo de força interior que a inclinasse a sua ação” (p.370). Esta liberdade não significa “independência”, ou seja, uma liberdade que não leva a prestação de contas mesmo com Deus, nem significa “liberdade de autonomia”, que leva o indivíduo a agir sem ser determinado por nada. Esta liberdade também não significa, ser “indeterminada”, ou seja, não determinada por influência externa, o mesmo que declarar: “Deus não exerce nenhuma influência por meio de seus decretos naquilo que o homem faz” (p.372). Aqueles que crêem numa liberdade vinculada ao decreto divino devem afirmar que esta está condicionada a duas coisas: ao decreto divino e à própria natureza deles. Contudo, não forçando os indivíduos a fazer o que não querem fazer. “Os atos decretivos de Deus, não tornam nossas ações forçadas” (p.372). Após conceituarmos de modo resumido, as causas e a liberdade, numa relação entre Deus e sua criação, de maneira particular, o homem, para tratarmos o mal moral, precisamos definir a natureza da lei moral. Assim como, as leis físicas, as leis morais governam o universo. Sendo que, a lei moral ajuda-nos a entender um pouco da natureza de Deus, e a conhecer melhor nossa natureza, pois “eu não teria conhecido o pecado senão por intermédio da lei” (Rm 7. 7). Pode-se dizer que o mal moral está diretamente relacionado com a lei moral, e da mesma forma o pecado para o mal, pois, o mal entrou no mundo devido ao pecado, que é a transgressão da lei, como está escrito em 1ª João 3. 4. “As leis morais foram implantadas no coração do homem e também foram escritas em tábuas de pedra para que os homens nunca se esquecessem das suas obrigações perante o Deus santo e justo” , portanto, “quando os homens violam as leis divinas, o mal moral está estabelecido na vida deles” (p.376). Definido estes termos, podemos agora, caminhar para a natureza do mal moral, à luz da natureza de Deus e da sua lei moral. Esta pode ser vista por duas perspectivas, que Heber define como negativa e positiva. A primeira diz respeito à ausência do bem, e a última porque diz respeito à presença de um mal real. O mal como ausência do bem, foi definido por Agostinho, e pode ser explicado pela afirmativa de que “Tudo que Deus criou é bom”, então se ele é o Bem Supremo, e tudo que existe procede dele, logo, toda a existência é boa, e o mal não é uma substância, não possui existência, mas é a ausência ou corrupção das coisas criadas. Vendo assim, o mal não existe por si mesmo, mas representa a diminuição do bem, que é resultado da desobediência do homem, pois “a potencialidade para a prática do mal está na capacidade da vontade livre do homem de ter prazer em si mesmo na tentativa de perversamente imitar Deus” (p.379). Deve-se considerar que a mente genial de Agostinho foi influenciada pelo neoplatonismo, em sua definição. O mal como presença positiva do pecado, ao ser avaliada deve destacar que nem todo o mal é pecado, mas todo pecado é um mal moral. Sendo este, não apenas a ausência do bem, mas a presença do mal também. Dia que surge a idéia de pecado de omissão, ou seja, deixar de fazer o bem, mas também o de comissão, ou seja, fazer o que é proibido. “Adão não somente deixou de fazer o que é bom, mas também fez o mal” (p.381). Quanto à origem do mal moral, temos a solução dada pelos defensores do livre-arbítrio (libertários), estes crêem que Deus criou o homem livre e que o homem não é influenciado por nada fora nem dentro, sua vontade independe de Deus e é autônoma quanto a própria natureza do homem. São geralmente chamados de “interdeterministas”. Para eles o mal é o mau uso da liberdade de sua vontade. Já os “deterministas”, crêem que “o futuro dos seres humanos é inevitável para eles, de forma que a liberdade de escolha é ilusória” (citado por Heber p.382). Há linhas de pensamento divergente entre eles, uns colocam o mal como parte da criação original de Deus, e outros como efeito inevitável de um fator causal relevante que precede as escolhas, levando as pessoas a escolherem como conseqüência, sem alguma necessidade ditar o que deve ser escolhido. Como exemplo podemos falar que “não era absolutamente necessário que Adão pecasse, o seu pecado era uma necessidade de conseqüência” (p.383). Fazendo-se necessário “uma conexão com os fatos e eventos da história, uma vez que tudo o que acontece tem que acontecer porque os fatos do passado afetam necessariamente os eventos do futuro” (p.384). O que se pode declarar com base nas Escrituras, é que Deus é soberano absoluto, mas que também o homem é livre e responsável. Portanto, não se deve perder o equilíbrio desta balança, mas caminhar entre as partes à luz das Escrituras, que apesar de não esgotar esta questão, nos dão algumas conclusões vitais para uma boa interpretação da origem do mal: 1) Se Deus é criador de todas as coisas, não existe a origem espontânea do mal – “Eu faço todas as coisas...” (Is 45. 7); 2) Se Deus é o criador de todas as coisas devemos rejeitar as idéias deterministas que apresentam o pecado como uma necessidade – Como alguns acham que a criação, principalmente os homens são finitos e limitados em sua essência imperfeita, sendo causa última e necessária de todo mal existente; 3) Se Deus é o criador de todas as coisas, não pode ser verdadeiro o ensino do dualismo – O dualismo ensina que por traz da realidade existe dois princípios eternos e absolutos não reconciliáveis opostos um ao outro, que de modo persuasivo e fácil apresenta a resposta para a origem do mal, o deus mal e o deus bom. Contudo, o mal não pode ser explicado como uma antítese eterna do bem, pois as Escrituras nos apresenta somente um Deus, criador de todas as coisas; 4) Se Deus é o criador de todas as coisas, o mal não tem origem eterna – Como visto acima, a idéia do dualismo sugere o mal como principio eterno, contudo em Isaias 45. 7, Deus assume a criação do mal no tempo e no espaço. Primeiro no mundo invisível e depois no mundo dos homens. Somente Deus é eterno e ele é bom. Contudo, quando ele fala que cria o mal, ele está assumindo a responsabilidade pela presença do mal na sua criação: “Deus chamou o mal a existência, mas ele fez com que viesse ao mundo pela agência das criaturas racionais, tanto anjos, como Adão e Eva, que agiram livremente”; Tendo em vista estes princípios, como poderemos relacionar o propósito do mal à providência divina? Como pode um Deus Santo, soberano, de amor permitir a entrada do mal no mundo? Não temos todas as respostas, mas em alguns momentos poderemos fazer bom uso da perspectiva que se segue. A presença de Deus não torna incompatível a presença do mal neste mundo, de modo contrário, pela presença do mal no mundo é que se torna explícito a presença da graça e misericórdia de Deus. Quando o apóstolo Paulo declarou que “Deus os entregou” (Rm 1.24), ele não quis de modo positivo empurrar o sujeito para o mal, mas retirou sua graça e misericórdia da vida deste, de modo negativo, ausentando-se a ponto de ficar completamente exposto a si mesmo e ao mal. De modo contrário, só podemos conhecer o amor redentor de Deus, na manifestação da tua obra em Cristo, que se fez por necessária devido à entrada do mal no mundo. Por isso, pelo mal, podemos conhecer melhor os atributos perfeitos que emanam do Sumo Bem. “A misericórdia só pode ser entendida aos que merecem condenação” (p.390). O aparecimento do mal também serviu para lançar luz ao poder de Deus que tanto se manifesta em sua misericórdia como em seu justo juízo, como podemos observar a seguir: “Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longaminidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia...” (Rm 9. 22-24). Portanto, podemos definir que assim como Deus é a causa última do mal, este mal veio ao mundo para exaltar a glória e o poder de Deus. Ao aplicar estas verdades para a vida do cristão, pode-se afirmar que a presença do mal no mundo faz com que demos valor à graça divina. “Quando Deus esconde sua face de nós, então ele nos mostra quão amargo é aquilo que pensamos ser doce, pois o pecado ainda causa algum prazer à nossa natureza pecaminosa” (p.409). Contudo, Deus ao permitir que sejamos expostos às tentações externas provenientes das potestades do ar, tem por finalidade fortalecer-nos, “todavia, se caímos aprendemos pela disciplina divina, o que é muito mais dolorido” (p.416). Nossa resistência, portanto, deve ser confiada no Senhor, pois, “quem pensa estar de pé, veja que não caia” (1Co 10. 12).
“Sujeitai-vos, portanto, a Deus; resisti ao diabo, e ele fugirá de vós” (Tg 4.7).
¹Resenha do Cap. XIII de "O Mal moral e a providência", HEBER. Apresentada à disciplina de Teologia Sistemática Escola Teológica da Barra da Tijuca - Dezembro de 2005