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O valor da justiça¹


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É interessante observar o valor universal da justiça. Todos os homens, de todas as raças e culturas a buscam, "a fim de manter a ordem ou justificar sua derrubada". As sociedades tentam manter o senso de justiça, que nasce no coração do homem, assim como, os sentidos perversos e maldosos descendentes do pecado. Qual seria a responsabilidade do povo do Deus, que revelou sua santidade e sua justiça nas Escrituras, ao acompanhar a miséria e sofrimento dos oprimidos por impiedosos dominadores? O autor vai clarear este posicionamento (evangélico) diante da justiça social bíblica, levantando questões e comparando a direção dos teólogos da libertação.
O desafio da justiça social está intimamente relacionado com o cuidado que devemos ter na interpretação, para a cultura não segar-nos quanto à vontade de Deus revelada na Bíblia. Não basta crer na Bíblia, ela deve ser compreendida e cuidadosamente interpretada buscando estabelecer o significado claro do texto em primeiro lugar, diminuindo assim, o peso da tradição e cultura de nossa época, influenciar a interpretação. Shedd observa o desinteresse parcial das igrejas em relação ao envolvimento político direto. Talvez, o “evangelho social” seja combatido pelo apego às promessas de salvação da vida eterna. Ou pela convicção de que a missão deve preceder qualquer esforço sério de melhorar o mundo. É misterioso o desinteresse pela justiça social movido pela convicção da soberania de Deus e pelo consolo da depravação total. De certo se lermos a Bíblia e observarmos os males sociais, afirmaremos que o mundo inteiro jaz no Maligno (1Jo 5.19). Claro que o cristão não pode esperar muito do incrédulo, portanto deve estar em primeiro plano, a evangelização, pois, o arrependimento e a regeneração são a única esperança da humanidade, para que se viva com responsabilidade bíblica diante de Deus e do próximo. Mas nem sempre a conversão afeta imediatamente a percepção da ética e da justiça no crente e na igreja. O cristão tende a resistir com paciência a níveis intoleráveis de opressão, na esperança do juízo de Deus. A prioridade da proclamação do evangelho não substitui a participação da igreja na busca da justiça social, pois a igreja de Cristo, foi chamada para ser luz neste mesmo mundo que jaz no maligno. O fato dos cristãos terem sido resgatados deste mundo e serem participantes da nova era, não anula a participação ativa na batalha contra a injustiça social, se limitando apenas à batalha espiritual contra o Diabo e suas hostes. Responsabilidades que antes pertenciam à igreja passaram para órgãos governamentais encarregados de promover o bem estar social e aliviar o sofrimento do povo. A hermenêutica na base da relação da igreja no mundo pode muito ajudar na solução dessas questões. O mandamento de amar o próximo como a si mesmo (Lv 19.18; Mt 22.39) faz de todo cristão um responsável nas questões de justiça social. Na medida que o fracasso humano, devido ao egoísmo, proveniente do pecado, de criar e defender estruturas mais justas e viverem como irmãos, só podem ser alcançados através de profunda transformação de conversão no coração que somente Deus pode realizar, torna-se necessário subordinar ao evangelismo qualquer meio de justiça, como meio de Deus para restaurar a imagem divina através da habitação interior de Cristo (Cl 3.10), conforme descrito por SHEDD (pág.7). Na Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, podemos observar Deus constituindo suas leis a um povo elegido para representar sua santidade na terra, conforme apresentado por SHEDD (pág. 8 e 9). Criou uma estrutura de imparcialidade para Israel através de Moisés, que garantia os fracos contra o insaciável desejo de poder dos fortes. Vemos Deus como proprietário absoluto das terras (Sl 24.1; Sl 50.12; Dt 10.14). Deus ordena que os ricos não desprezem os pobres (Dt 15.7ss). Um dos propósitos do descanso sabático da terra era de prover alimento aos destituídos (Ex 23.11). A legislação divina não permitiria discriminação racial. Os estrangeiros, as viúvas e os órfãos deveriam ser bem tratados (Dt 10.18ss; 24.17). Os julgamentos nos tribunais deveriam ocorrer imparcialmente, não considerando a condição social do acusado (Ex 23.1,6,7; Lv 19.15s) e evitando o suborno das autoridades (Ex 23.8). A usura e os empréstimos deviam beneficiar os necessitados e não o agiota (Ex 22.25ss). Os inocentes não deviam pagar pelo crime dos culpados (Dt 24.16). Deus exige o cancelamento das dívidas e empréstimos em tempos determinados (Dt 15.1-6). Entre tantas outras leis apresentadas nas Escrituras, diretamente instituídas por Deus, podemos afirmar que Israel deveria ser uma sociedade justa para todos os cidadãos sem distinção de classe ou posição, refletindo a santidade daquele que a criou. Da mesma forma que devemos obediência a Deus, devemos responsabilidade para com o próximo. “As instituições e leis divinas reveladas não garantem, porém, a execução da vontade de Deus por parte dos homens no governo” (pág 9). Desviando-se da prática da justiça, o povo sofreu pesadas conseqüências ao longo de fracassadas tentativas de permanecerem fiéis a Deus, até serem exilados (Jr 34). O Antigo Testamento nos apresenta ricamente o estabelecimento da justiça social, assim como, a história do fracasso humano na prática da retidão. Deus não aceita a adoração e sacrifícios daqueles que escarnecem da justiça, tanto que a idolatria e a injustiça se equivalem aos seus olhos (Am 5.25). Os profetas, muitas vezes, chamaram o povo ao arrependimento, porém, muitas vezes também, quando atacavam a maldade da estrutura, eram considerados revolucionários e reis e autoridades de várias épocas reagiram negativamente a essas interferências. Com a semelhança entre a época dos profetas e nossos dias, devemos analisar o contexto, pois tanto os profetas quanto as estruturas do poder faziam parte da cidade de Deus. A hermenêutica pode ser uma contribuição para oferecer uma correta relação entre teologia e prática, entre o evangelho e a ação. “A teologia do Novo Testamento não está dissociada da vida” (pág.12).
“Não devemos fechar os olhos para o significado tipológico da lei de Deus revelada sob a velha aliança para o seu povo da nova aliança” (pág. 13). O sacrifício da Salvação pela cruz, ressurreição e inauguração da nova era, não diminui o interesse de Deus pela justiça em toda a terra, pelo contrário, ele faz uso deste sacrifício para tornar a terra mais justa, portanto o cristão como membro da sociedade e de um estado político, deve exercer seus direitos e responsabilidades.
Podemos observar que, a chave para a interpretação da Bíblia no sentido da justiça, encontra-se na natureza moral de Deus, na criação do homem à sua imagem e no individualismo egoísta do homem decaído. E a igreja deve refletir a preocupação com a justiça, reconhecendo e impondo-a, sem violência, mas vivendo-a acima de tudo. Existe uma corrente de cristãos especialmente latino-americanos, seguindo uma ideologia baseada num esforço de eliminar a injustiça social, denominada teologia da libertação. Apoiada inicialmente nos pensadores liberais alemães, que colocava parte da esperança de uma sociedade mais justa baseada no desenvolvimento econômico, a teologia da libertação trouxe confusão a hermenêutica, conforme afirma SHEDD (p.21): “A Escritura Sagrada não é mais a fonte. Ela oferece pouca base para promover a revolução de classes”. Será que todo cristão deve envolver-se na luta para a transformação no mundo da paz? E os inimigos desse novo mundo devem ser subjugados, silenciados ou talvez aprisionados? H.O.B. Brown, citado por SHEDD (p.24), afirma com razão que o “cristianismo não busca uma solução para o mal na sociedade humana eliminando os seus membros perversos, quer sejam eles considerados como uma raça, como fizeram os nazistas, ou uma classe, como os comunistas”. A teologia da libertação apresenta as Escrituras com um preconceito de modificar o mundo, e qualquer outra interpretação seria errônea. Transferindo a importância da Bíblia de verdade absoluta, para sua capacidade de motivar. Se estudarmos o ministério terreno de Cristo, concluiremos que, Jesus não compactuou com as guerrilhas do seu tempo, nem procurou meios de libertar presos políticos. “Ele operou milagres no reino material..., mais seu verdadeiro propósito era instilar fé na sua pessoa como Filho de Deus que veio para salvar os perdidos, entregando sua vida como resgate por muitos (Lc 19.10; Mc 10.45)”, SHEDD (p.27). Podemos concordar, então que, Jesus nos deu uma chave hermenêutica poderosa, com o seu modelo de servo-líder (Lc 22.25-27), sendo a “sua mente a única pista hermenêutica segura para entender a responsabilidade do cristão para com o mundo” SHEDD (P. 29).
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¹ Resenha de “A justiça social e a interpretação da Bíblia”. SHEDD, Russell P., 1984. 45p. Ed. Vida Nova.Apresentada à disciplina de Hermenêutica Bíblica ministrada pelo Pr. Alexandre Gouvêa, na Escola Teológica Reformada da Barra da Tijuca em Junho de 2005.


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