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FREUD, Sigmund. O Futuro de uma Ilusão. Ed. Imago


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Para entender a essência das idéias religiosas em Freud, é necessário conhecer a relação dialética que ele faz entre o homem e a natureza num processo cíclico interpondo a origem e evolução da civilização. Ele critica o pensamento cientificista, o qual propõe explicar tudo de modo positivo pela ciência, e desloca a relação do homem com a civilização do material para o mental. Sua definição de homem é totalmente antropológica, ‘um ser de instintos os quais devem ser satisfeitos imediatamente’. Contudo, a natureza colocando impedimentos para a satisfação destes instintos faz o homem desenvolver a civilização, a fim de controlar as forças desta natureza, produzir as riquezas necessárias para sua satisfação e regular a relação do indivíduo na sociedade, pois este possui tendências destrutivas.

Logo, a civilização é um mal necessário e o homem deve produzir mecanismos para proteger a civilização de si mesmo. A cultura, arte e religião são estes mecanismos, ilusórios ou não, que servem para satisfazer os instintos e controlar as forças da natureza. Ele coloca a necessidade da coerção e do domínio do trabalho da civilização por uma minoria que não seja influenciada pela massa, e que possuam uma “compreensão interna superior das necessidades da vida, e que se tenham erguido à altura de dominar seus próprios desejos instintuais”. Já que a civilização usa medidas de coerção e “repousa numa compulsão a trabalhar e numa renúncia ao instinto(...) ela também deve reconciliar os homens (...) e recompensá-los por seus sacrifícios”. (cap.II). A civilização impõe privações somando aos danos da natureza (destino), que deixa o homem desamparado em busca de consolação frente aos terrores da natureza, assim este homem toma o primeiro passo, que é humanizar a natureza, claro, pois diante destas forças impessoais ele não poderia se aproximar, mesmo que ainda se ache indefeso agora ele pode ao menos reagir, frente as manifestações que agora são seres como na sociedade, aplicando os mesmos métodos usados nesta sociedade: “conjurá-los, apaziguá-los, suborná-los e, influenciando-os assim, despojá-los de uma parte de seu poder”(cap.III). Freud propõe uma substituição da ciência natural pela psicologia:

“No decorrer do tempo, fizeram-se as primeiras observações de regularidade e conformidade à lei nos fenômenos naturais, e, com isso, as forças da natureza perderam seus traços humanos. O desamparo do homem, porém, permanece e, junto com ele, seu anseio pelo pai e pelos deuses. Estes mantêm sua tríplice missão: exorcizar os terrores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do Destino, particularmente a que é demonstrada na morte, e compensá-los pelos sofrimentos e privações que uma vida civilizada em comum lhes impôs”.(cap.III)

Freud fala também de um deslocamento de ênfase, do domínio da natureza pelos deuses os quais também são dominados por seus destinos, logo não podem alterar tanto o curso das coisas a ponto de não poderem remediar o desamparo da humanidade, desligando-se cada vez mais da natureza, a expectativa nos deuses recai sobre a moralidade, tornando-se esta, o verdadeiro domínio deles:

“Ficou sendo então tarefa dos deuses nivelar os defeitos e os males da civilização, assistir os sofrimentos que os homens infligem uns aos outros em sua vida em conjunto e vigiar o cumprimento dos preceitos da civilização, a que os homens obedecem de modo tão imperfeito” (cap.III).

Em resumo pode-se dizer que as idéias religiosas foram criadas, assim como, todas as outras realizações da civilização, a saber, “da necessidade de defesa contra a força esmagadoramente superior da natureza”, acrescentando ainda, a retificação das deficiências da própria civilização (cap.IV).


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