Fragmentos de muros fotografados por Brassaï
"Graffiti, expressão impulsiva e livre do homem, em seus traços mais primitivos do seu amor, seu desespero, medo ou raiva gravado em lugares escuros e insalubres em nossas cidades." (Agnes De Gouvion Saint-Cyr)
O húngaro Brassaï (1899-1984), nome original Gyula Halász, poderia ser o precursor do interesse moderno pelo graffiti. Referindo-se as paredes pintadas atribuídas à categoria artística. Sua obsessão com graffiti era tal, que há quase três décadas, entre 1930 e final dos anos 50, dedicou-se sistematicamente a fotografar e arquiva-los, resgatando-os do esquecimento, e afirmando-lhes um papel na formação e desenvolvimento da avant-garde da época que ele conhecia muito bem.

Adimirava Soulages, Hantaï e Dubuffet, entre seus amigos, que também fotografou, havia Dali, Picasso, Matisse e Giacometti, e tinha uma relação intensa com Henry Miller, relação que o autor certificou no 'Trópico de Câncer': "Um dia eu conheci um fotógrafo. Ele conhecia a cidade como a palma da mão, especialmente nas paredes. Nós exploramos o 5 º distrito, 13 º, 19 º e 20 º em todas as direções. Nossos favoritos eram alguns cantos sombrios[...]. Muitos desses lugares me eram familiares, mas agora estava em uma luz diferente "
Brassaï, que considerava que a época (uma verdadeira tempestade de idéias no primeiro terço do século XX) questionava a razão de ser da arte, disse que não queria mais ficar fechado dentro das quatro paredes de uma oficina de pintura e preferiu fazer de Paris seu campo de experiências, pois "a vida o apaixona de forma distinta da arte". Confessa preferir "a linguagem universal do museu mais bonnito do mundo: é a linguagem dos muros..." (Agnes De Gouvion Saint-Cyr)

"É a atre dos humildes desprovidos de cultura e educação artística que se reiventava com seu próprio impulso. Uma arte que ignoramos e que se ignora. A linguagem das imagens é o mais primitivo, mas nos esquecemos de ouvir a linguagem silenciosa, sem a mediação da palavra ". (Brassaï)

"Um velho muro nunca é inerte, vibra em toda sua superfície colorida, as cores deslizam uma sobre a outra. Os agentes naturais abrem passagens, produzem gradações com sutilezas infinitas, e é nesse profundo laboratório que se encontra a arte informal, surge no muro um autêntico estado vital."[...] Que importa se detrás dos graffitis se busca em vão a premeditação, a lúcida vontade, a ciência das regras, quando o que se nos oferece nos surpreende, nos humilha, nos exalta - eles tem sido o enusiasmo de Picasso, Braque, Paul Claudel - como se deles emanassem o prestígo da obra de arte." (Brassaï)

"Às vezes, em Ménilmontant, me deparava com a arte mexicana, no Porte de Lilas, com a arte das estepes, e no 14 º distrito, com a arte pré-helênica, na Capela, com a dos índios Iroqueses, até que de repente , um beco sem saída me transferiram para um Klee, um Miró, Picasso, a arte dos nossos dias. "(Brassaï)
Tanto Brassaï como Picasso demostraram suas facianções pelas fendas (buracos). Brassai afirmou em numerosas ocasiões sentir-se particularmente fascinado pelo valor expressivo dos buracos, que representam não só os olhos, mas também o brilho dos olhos. Picasso, enquanto isso, conhecedor do trabalho do fotógrafo, considerava que a arte é a linguagem dos signos. "Quando digo 'homem' evoco o homem. Mas não é estranho o que se pode fazer com meios tão simples? Dois buracos são muito abstratos se você pensar sobre a complexidade do homem..."

A cumplicidade do muro vai ainda mais longe. Também formam uma estrutura que não pode ser mais favorável para ativar a imaginação. Leonardo da Vinci já havia notado as virtudes maiêuticas da parede: "Em todos estes rabiscos podemos ver estranhas invenções, quero dizer que se olhar com atenção verá nestas manchas, cabeças humanas, vários animais, uma batalha, rochas, o mar, nuvens ou qualquer outra coisa; é como o badalar do sino, que permite ouvir o que você imaginar."

A matéria da parede tem vida própria. Manchas, suas zebras-listradas, suas semelhanças que surgem ao acaso sempre tem ajudado ao homem a revelar-se a si mesmo. Além disso, a parede, dá origem ao um estilo diferente daquele que dá o papel, um estilo mais robusto, mais resistente, mais expressivo, desprovido da vontade do pintor. Aqui estamos nós a mil léguas da suavidade dos desenhos de criança. O que surge ao colocar o papel sobre a parede resulta no grave, bruto, cruel e bárbaro. A franqueza da emoção, o frescor da visão são os mesmos. Então, o que nos aprisiona aqui é a força que se alimenta com a matéria, os resultados gráficos inteligentes, ousados, imprevisíveis atingem o limite de sua resistência. É bom e bonito para a beleza que grafittis por vezes alcancem a intensidade e grandeza das artes arcaicas. Beleza plástica acentuada por uma parede de trabalho pouco maçante, vapores físicos e químicos, umidade, calor, clima, fumaça, dada a sua pátina, se corroem, suportam seu relevo e aceleraram o processo de envelhecimento, de forma que parece ter vindo verdadeiramente de outra era. (Brassaï)
(via: http://trazosybosquejos.blogspot.com)
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