
Livro pequeno de fácil leitura, mas de conteúdo relevante e orientador para os amantes das artes visuais. Uma leitura da arte moderna pelas lentes de Paul Klee (1879-1940). No prefácio de Günther Regel, é revelado "o fenômeno Paul Klee", a pessoa: artista, professor, músico e poeta que viveu a turbulenta geração dos `ismos´ da modernidade, sem ficar limitado as técnicas e aos manifestos, apegou-se ao essencial;
Sobre a arte moderna:
"Admiti a legitimidade do conceito objetivo no quadro, e com isso obtive uma nova dimensão.Designei cada um dos elementos formais em seu contexto próprio e particular. Procurei tornar claro o modo como eles saem desse posisionamento. Procurei esclarecer a sua formação como grupo e as combinações desses grupos, a princípio limitadas e depois um pouco mais amplas, em imagens. Imagens que podem se chamar construções abstratas, mas concretamente podem assumir nomes, de acordo com o sentido das associações comparativas que despertam (com estrela, vaso, planta, bicho, cabeça ou homem)." (p.61)
"Essa mobilidade do pensamento nos caminhos da criação natural é uma boa escola para a configuração de formas."
"A partir dessa perspectiva, é preciso perdoar o artista se ele considera o estado presente do mundo de fenômenos com que se depara como algo acidentalmente paralisado, no tempo e no espaço. Como algo completamente limitado, em comparação com a sua visão profunda e a mobilidade do seu sentimen-to." (p.65)
"Porque as obras de arte não só reproduzem com vivacidade o que é visto, mas também tornam visível o que é vislumbrado em segredo." (p.66)
"Além disso, também não quero mostrar o homem como ele é, mas apenas como ele poderia ser. E desse modo posso obter com êxito a ligação entre uma visão de mundo e o puro exercício artístico." (p.67)
"Encontramos fragmentos, mas não o todo" (p.68)
Sobre a luz de Robert Delaunay, traduzido por Paul Klee:
"Enquanto a arte não se libertar do objeto, ela é descrição, literatura, reduzindo-se à utilização de meios de expressão equivocados, escravizando-se à imitação. E isso também vale para quando ela enfatiza os fenomênos luminosos de um objeto ou as relações de luz em meio a vários objetos sem que dessa maneira a luz se eleve até alcançar uma interdependência apresentativa." (p.79)
O ponto de vista próprio:
"Em minha arte falta um tipo apaixonado de humanidade. Não tenho um verdadeiro amor terreno pelos animais ou por todas as criaturas. Não me inclino para eles nem os elevo até mim. Prefiro me dissolver na totalidade, e permaneço num patamar de fraternidade em relação ao próximo, a todos os meus vizinhos terrenos. Procuro um ponto original de criação afastado, onde pressinto que há um tipo de fórmula para o homem, animal, planta, terra, fogo, água, ar, e todas as forças circundantes ao mesmo tempo." (p.80)
Caminhos do estudo da natureza:
"No passado, a crença na arte e o estudo da natureza, correlacionado a essa crença, consistiam no que se pode chamar de uma pesquisa penosamente minuciosa da aparência. Eu e você, o artista e seu objeto, procurávamos relações seguindo o caminho físico-ótico através da camada de ar entre nós. Nesse percurso foram obtidas pinturas notáveis da superfície dos objetos filtrada pelo ar, e com isso se desenvolveu a arte da visão ótica, diante da qual a arte de observar e tornar visíveis impressões e representações não-óticas permanecia negligenciada.
As conquistas da pesquisa da aparência não têm que ser desvalorizadas por causa disso, é preciso apenas ampliá-las. Hoje, esse caminho não corresponde mais às nossas necessidades, como também não era a única necessidade de anteontem. O artista de hoje é mais do que uma câmera aperfeiçoada; ele é mais complexo, rico e espacial. É uma criatura sobre a terra e uma criatura dentro do todo, ou seja, uma criatura num astro vagando entre os astros." (p.81, 82)
"O objeto se amplia para além de sua aparência, por meio de nosso saber acerca de seu interior." (p.82)
"Antes um ponto de vista anatômico, agora um ponto de vista mais psicológico." (p.83)
"Por meio da vivência conquistada nos diferentes caminhos e transformada em trabalho, o estudante dá indicações do grau atingido em seu diálogo com o objeto natural. Seu desenvolvimento na contemplação e observação da natureza, ao pôr em evidência sua concepção do universo, o tornam capaz de criar configurações livres de formas abstratas, que ultrapassam a intensão esquemática e alcançam uma nova naturalidade: a naturalidade da obra. Então ele cria uma obra, ou toma parte na criação de obras que são uma parábola da criação divina." (p.84)
Estes ensaios com algumas citações acima, traçam um caminho pelo pensamento de Paul Klee, mas não são suficientes, para satisfazer o leitor que irá encontrar outros ensaios além de anexos, como uma carta de Kandinsky e o currículo do artista. Não deixe de ler as notas.
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